quinta-feira, outubro 01, 2015

De cala e calo

Quem cala com cem tecidos
não tece o fio da meada colorido
não trama a manhã feliz de assobios.

Desentrelaça a veste dourada por entremeios,
a teia cousada por urdume e liberdade.

Entristece o pássaro azul e as sedas inúteis do chão.
Por isso calo não. Não vendo a couraça da alvorada,
o manto violeta das coisas que rastejam entristecidas.

E por não ter sido cúmplice do enredo liço da maldade,
reinvento a tarde e a alegria sumida na tecelagem,
articulo a traquinagem das máquinas,
a molecagem inevitável dos erros humanos
contra os panos de falsas fantasias e fundos
intrigas tricotadas pelos ditos donos mundo
que destroem sonhos e remetinas.

Couraço meus calos em resistência
e desacato, desato meus braços
dos grilos e grilhões de aço e galpões.

Fujo das urdidas prisões,
planejo voo para as multidões
e arquiteto novos teares.


Lee Flôres Pires

terça-feira, setembro 22, 2015

Efêmero

Córrego de letras,
borboletas,
mágoas
e silêncio.

Lee Flôres Pires

quinta-feira, setembro 17, 2015

Aragem

Isto de tua unha não arar minha carne,
fazer de minha derme grilagem,
incendeia a revolta, o forcado,
a greve do meu colibri.

Lee Flôres Pires

Margem

Isto de tua mão ir fundo em minha pele,
acalma minhas águas,
a margem dos nossos lábios.

Lee Flôres Pires

Seis e meia

Greve de lírios
vi no seu olhar
saíram todos

no céu,
nuvens pasmas
foram incendiar.

Carla Andrade

quinta-feira, julho 17, 2014

Noturna

Eis que a inércia desvivida cabulou a entreporta do ser.
Era como se levasse meras ultrajantes disritmias para o foco do enredo.
- Salve!! Gritou o fascínio, o deslumbre desmedido...
(.)
Quis ver falácias na órbita intelectual,
quis amar rótulos de noite pré-nupcial.

O que desmilinguiu agora a verdade?
O fim é vivencidade?
Ou é o início mórbido de exílio?

(eram as queixas noturnas).

...minhas camas de azul neon, e o deleito corpo fechado.
Este pulso acelerado, este calor de pós-noite de despurificação,
abrem as portas do teu peito.
- Salve!!! Gritou o fascínio,
a mesma voz de sempre,
o mesmo peito aberto.

Era como se não houvesse o silêncio, era como se o som fosse eterno.
E foi eterno pelo gigantesco segundo do seu olhar.
- Salve!!! Gritou o desespero, a mesma voz que não me alcança,
o mesmo peito fechado.

Era como uma despedida sob a névoa da noite, era como um poema que deixamos para escrever depois e perdemos.
E foi o poema,
e foi a perda
do foco.
Do seu fogo.

Lee Flôres Pires

quinta-feira, agosto 29, 2013

Concha

À Amélia Pais

Para o fio do caminho,
a meada contornada
no limiar do dia,
atrás da luz que se esvai
em seus sonhos alados,
seus olhos calados,
guardados no teu peito
fundo, dentro do mar.

Lee Flôres Pires

Cedo

Desculpo 
teus braços, 
Guernica 
e Picasso. 

Esculpo 
teu corpo cedo, 
dedos e culpa. 

Cedo ao barro moldado 
em teus contornos, 
desabafos desenhados 
na minha cama, 
e no amanhecer de tua pele.

Lee Flôres Pires

Ampulheta

Sempre vejo a mesma flor,
alegre, reinventando o amor,
uns em azul, outros em violeta.

De/lírios, noite, lilás,
aroma, licor e cais,
de bailarina
e baionetas
sem fim.

Lee Flôres Pires

sábado, maio 04, 2013

Manhã de poesia

Diante do outono
espero a primavera,
com fé nos homens
nesta fábrica de máquinas 
e de um mundo cinza.

Ser feliz quando tudo é infelicidade,
apenas por um sonho de liberdade.

Possível, necessário.

Temperar no aço
a última manhã de poesia
nas nuvens, nas flores
no doce dos nossos lábios.

Lee Flôres Pires


sábado, março 02, 2013

Madrugada

A noite cai viscosa,
escorrendo lentamente pela parede do nosso quarto -
óleo diesel que inflamava nossa cama.

O dia se nega a nascer,
tua ausência freia a gravidade
em tudo que a vista alcança:
a chuva desce lenta diante da nossa janela -
tragédia sem cores
que me lava
e me arrancar da pele seu toque.

A madrugada, se esvaindo
em lágrimas, congela meu peito,
e um sol pálido anuncia a manhã
em meu corpo cinza
e sem sentidos.

Lee Flôres Pires/Rafael Costa