sexta-feira, dezembro 30, 2005

Solidão, não!

Escuridão
Ter que andar nessas ruas
que medo que dá
que tristeza eu sinto
ter que lembrar nessas ruas
do amor que deixei passar.

Contornar essas esquinas
me rasgam as veias.
Me traz a tona
o teu olhar que me detona
feito bomba H.

Escuridão
e vertigio de luz nas janelas
nos corpos que se deitam
às cinco da manhã.
Escuridão
solidão...

E o fim daquela festa não me resta aqui dentro!



Lee Flôres Pires

segunda-feira, dezembro 26, 2005

O poema não cala

O poema não cala
ele subsiste dentro de mim
com sua parcialidade dos
dias tristes e dos dias
felizes.
Sua voz tende a não
ser amordaçada,
sua voz reflete
o seu olhar blasé
de dias quase fúnebres.
Suplicando revolta
suplicando dias de
domingo.

Qual leveza é mais
humana?
Essa existência
esse poema claustro
me liberta
me prende
me emociona
me termina.


Lee Flôres Pires

sexta-feira, dezembro 23, 2005

Voz que cala

Quando o som dissonante soa
a voz cala
e o silêncio ecoa.

Lee Flôres Pires

terça-feira, dezembro 20, 2005

Qual veracidade há ao ver a cidade?

Que tristeza te ver amar
no sobresalto da minha lente.
Ver minha dor não calar
nas ampulhetas do que se sente.
Seu sorriso no espelho
não cabe na minha mão
Pálido, cinza... vermelho
escorregou...
e caiu no chão
despedaçou o meu desejo,
dilacerou meu coração.

Que tristeza te ver amar!
Minha sede de revolução,
meu sabor anárquico de viver.
Que tristeza ver a cidade
inverossimilmente diluir
na acidez do seu olhar
tão distante, tão remoto.

[silêncio no caminho de casa]

...E eu que quis um dia amor pra sempre,
espero agora
amor pra agora.


Lee Flôres Pires

terça-feira, dezembro 13, 2005

Melancolia

Fim de tarde
terceiro andar - sacada vazia
o último cigarro apagado no cinzeiro
o aparelho de som ligado em silêncio.
A música acabou.

Lee Flôres Pires

quarta-feira, dezembro 07, 2005

Por hoje é só

A minha vida inteira pela frente
e a dor é o bastante.
Corrigir as ruas sem nomes,
e o jardim das flores murchas.
Não olhar pra trás,
não lembrar dos outonos
é necessário para aprender a amar.
Talvez amanhã eu aprenda,
por hoje é só.

É só por hoje
que quero o amor cego,
o amor cortês
o amor burguês
o amor platônico
o amor amor!

É só por hoje
que quero você.


Lee Flôres Pires

sexta-feira, novembro 25, 2005

Silenciosas manhãs

I

O que será dos vultos pálidos de prazer?
Seriam suficientes nas constelações sonoras do seu ser?
Egos pedagógicos sussurrados sem medida.
Apetite profundo de deleitar dores e odores.

Simples gaiola de sentimentos,
vozes ardosas de condicionamento,
nas silenciosas manhãs...
tenebrosas manhãs...

Vida de vidro incolor
exalando vocábulos irrefutáveis...
vida de vidro incolor
(sem vida, sem graça)
vivida nas esquinas da dor.
Amor!!!
(Palavra desgastada)
Em precipitações palpitantes,
desmistifico seus mistérios,
oh lua, musa dos amantes!
Tu diante de incrédulos gritos profanos,
silencia com a manhã.


II

... eis que acordou o poema!
O que lhe dar de manhã?
- mau humor e café amargo.
A febre dos que não voltam,
o sono dos que não se recuperam...
O dia chega ingênuo,
sem saber o que fazer
com os resquícios soturnos de um verso maldito,
pois a noite reflete os desejos,
que o dia tira das vitrines holofoticas.
ótica visceral!
ótica visceral!
ótica visceral!
... ótica ... wodka...
motiva... noi(a)tivo!
saudoso e repetitivo eu eis de ser
álcool, cigarro e retina no pulmão
becos, vielas e esquinas... solidão!
Me é lucro o que vier... de manhã.


Lee Flôres Pires

segunda-feira, novembro 07, 2005

Medo, virtude ou amor?

Seus contornos não me enganam,
já passou o dia da morte do meu Deus.
Quase nunca ouço você falar,
e isso não é ismo de eus...

Ego
Ismo
Ex
Centrico.

Abismado toque,
olhar menos norte
e falta da sua voz.
É a falta da falta da falta da falta...

medo, virtude ou amor?
Meu amor: absinto tecnocrata.
Longe do meu toque menos norte.
Meu medo bizarro,
minha vontade de chorar.
Minha virtude burocrática de amar.

Menos eu,
menos você
vácuo de paixões
menos plástico.

menos eu
menos amor.


Lee Flôres Pires

sábado, novembro 05, 2005

Perdi um poema

No instante que olhei a entreporta do seu fanático olhar:
a vi!(...)
era ela!
aquela era ela!
e era nada!
não consegui perder o eco da sua voz!
Mas ele mantinha a porta aberta!
Diante dos conchavos bizarros,
permaneceu mediocremente belo.
e era elo a cor do seu coração,
e era o olhar fanático do ópio!

No outro instante, sob olhares menos fanático, desejei entreportas fechadas.
Quase mudo, quase sincero,
e sob efeito do mesmo ópio.
Mas ele mantinha a porta aberta,
diante de conchavos bizarros.

Me fiz distante,
mas ele... constante em seu olhar
continuou perdendo o poema estanque
na volúpia da sala de estar.


Lee Flôres Pires

domingo, outubro 23, 2005

Cores mortas

Atalhos...

Sabores leves
Versos e prosa
Retalhos...
Adeus!

A(mor)es tor(tos)
Cores
Licores
atores...

Outros ares,
Leveza
do
meu
Coração.

Se eu fosse pluma
teria um norte
Acaso...
Bem
e mal.

mas amar as causas perdidas
é amar minha contramão.
É seguir minha direção torta,
minha rota de colisão.

Amores
Cores
Versos
Adeus...
Atalhos
Retalhos
Prosa
Adeus...
Pluma
Leveza
Licores
Adeus!!


Lee Flôres Pires - 20-07-04

segunda-feira, outubro 03, 2005

A Poesia Passou...

Meu Deus! A poesia passou na minha frente
ninguém olhou, ninguém sentiu meu Deus!
Eu aqui no meu sofá estanque
esperando a poesia passar.
A poesia passou...
passou despercebida
por entre os dedos do guitarrista,
pela doses homeopáticas
do eter na menina eufórica,
feliz de graça.
A poesia passou...
passou e sumiu
na vertigem ébria
das festividades.
Ninguém olhou, ninguém sentiu meu Deus!
De onde veio?
Pra onde foi?
Como poder quantificar sua passagem?
Não sei!
Quem sabe?
Apenas sinto estático,
o sangue pulsar nas veias.
Esperando a poesia passar de novo
Sentido vontade de gritar
e de anunciar a poesia!
Que está por vir.

Lee Flôres Pires

quarta-feira, setembro 21, 2005

Signos e sangue

Se quando você acorda
a poesia te supreende
dizendo assim:
- ei, acorda!
- está na hora de trabalhar!

Se átras das telas brancas,
onde ninguém cala,
jogamos picassos
na vala comum.
Se nossos comedidos enfoques,
nossos alomórficos libidos,
e sotaques estanques
derrama nossos signos
e sangue
no último poema.
durma!
e não acorde!
pois a poesia já morreu!


Lee Flôres Pires

terça-feira, setembro 13, 2005

Eu sou Londres

No fundo da caverna
desligo a teia
que conecta o mundo
comendo passivo,
insetos histéricos
no meu bocejo de poucos de desejos
(Rebanho incorreto).
Meus tantos desejos?
Os insetos histéricos?
Vou atravessar paredes
caminhar entremuros, evitar entrepernas.
Viajar na caverna do fim da vida
rumo ao vazio de tudo,
mentindo ser para não ser
através de um profundo mal-estar.
Um dever que se cumpre,
que promete o nada
a devir
na expansão da contrição
de um transe
de mentiras herdadas
da mesma covardia
não se entrega um corpo assim
à vida!
É relutância da pior sujeira.
E sentir essa relutância enfraquecida,
se encaminhando para o seu fim.
É para mim, alguma forma de alegria
na caverna do fundo do mundo.
Tentamos esconder os nossos fedores.
Delícia intacta de uma felicidade virgem,
exalando regras para a dor e delírio.
A dor e o delírio expandem-se na caverna
e o medo nos forja cada vez mais sábios.
E isso é ultrajante!!
Iogue, babo mantras e insetos...
engulo gafanhotos Bíblicos
como santidade katalogada
a regurgitar psicodelia
para turistas místicos, atônitos e... CorRetos......
Eis aqui a loucura da vida:
a caverna do fundo do mundo é tudo
e eu já não sou nada
só luz.
Eu já não sou nem quase
eu sou a caverna,
eu sou o fundo,
eu sou o mundo,
EU SOU LONDRES.

(Lobão)

sexta-feira, agosto 26, 2005

Com os próprios olhos.

- Não! Isso não é um poema.
As lágrimas que aqui pousaram
nunca virarão uma canção:

- Te vi ali na esquina!
- Foi?
- Foi sim... e vi suas máscaras de vento.
- Máscaras?
- Sim, máscaras.

- Não! Isso não é pra você.
Os destinos traçados por esta esquina
nunca desvirtualizou ninguem:

- Ei, te vejo em outra esquina!
- É?
- É sim... e com as máscaras que você quiser.
- Máscaras?
- Sim, máscaras.

- Não! Não olhe assim pra mim.
Você nem quis saber por onde eu ando.
É verdade, eu ando mesmo assim.
Mesmo que esse dia não chegasse!

- Ei, olhe pra mim!!
Com os próprios olhos.
Na veia da vida,
no vício visceral.
E depois me diga,
se é abismo ou providencial.


Lee Flôres Pires

quarta-feira, agosto 24, 2005

Quando for manhã...

Quando eu acordar amanhã
não lembrarei dessa janela,
desse copo de vinho.
Quando eu acordar amanhã
não lembrarei dos olhos dessa mulher,
que me guarda a sua nudez
e a tantos outros por quinze minutos,
deitada ali na cama;
nem tampouco lembrarei
a quantas andam tuas vitrines,
teus holofotes mainstream.
Quando eu acordar amanhã
não lembrarei da minha vida
escorrendo entre os dedos.
Meu verbo não será mais carne,
quando eu acordar amanhã
no tempo que aqui jazia!


Lee Flôres Pires

segunda-feira, agosto 15, 2005

Não creio: temo!

Abri a porta da noite:
aquele sorriso entre dentes
de me tirar o sono,
de me calar a boca;
aquela saudade...
talvez um poema.
Ou.
Pedaços do dia.

Nas veias do silêncio:
o melhor elogio;
a anti-poesia das palavras;
a surdez sonora dos sentimentos.
Nas veias do silêncio:
- ouço:
- não sou, não sei: tenho!

Lee Flôres Pires

terça-feira, agosto 02, 2005

Morte e vida socialista

O prato na mesa
a mesa na sala
a sala vazia
vazia e casta.
Olhando a parede
a parede que cala
cala o vídeo
a música de massa.

Morte, morte, morte...

O corpo na cama
a cama no quarto
o quarto vazio
vazio e infarto.
Olhando a cortina
a cortina que baila
baila no vento
o vácuo da casa.

Morte, morte, morte...

Morte e vida
vida é morte
trincheira libida
acaso e sorte.
No fundo do poço
a mesma retórica
o último esboço
favela bucólica.

Morte, morte, morte...

... e vida!?
Qual esquina perigosa devemos cruzar?
... me diz!!
e você me olha?
... me grita!!!

... vida vida vasta vida
se eu me chamasse socialista
seria uma rima não uma solução
vida vida vasta vida
mais vasta é a revolução!

Lee Flôres Pires

segunda-feira, julho 11, 2005

Seria Apenas Eu?

Se essa voz fosse poesia,
se me embriagasse estes versos,
se a contensão me fosse revolucionária,
qual a revolução me abrigaria?

Se minha veia fosse eter,
se meu desejo fosse ética,
se meu coração suplicasse não,
qual delírio seria menos vertigem?

Se a fúria fosse volúpia,
se o eterno acabasse em um segundo,
se a vontade fosse verdade,
quantos minutos de silêncio seriam necessários?

Lapidar aragem,
confabular politicagem,
refugiar solenidade
além das conscientes futilidades,
seria
coragem,
medo
ou violência?

Até poderia ser apenas
uma dose a mais,
mas sua cara não é a minha.
Não é
não é...
mesmo que fosse
mesmo que simplesmente
fosse eu.
Seria apenas eu.


Lee Flôres Pires - 10-07-2005

segunda-feira, junho 27, 2005

Dentro aqui, aqui dentro

Ela saiu:
brilhou seus olhos,
cabeça na lua.
Era o inicio
daquilo que não
tinha fim:
conversas abafadas,
versos silenciados,
sorrisos constrangidos,
violência no ar.

Ela voltou:
fez-se o caos
aqui dentro;
dentro aqui
cristalizou o romance,
a poética dos rumores,
os discursos panfletários.
Era a vertigem
da inconstância...
era a vertigem!
Era ela
aqui dentro!


Lee Flôres Pires

sábado, maio 21, 2005

Foco Trivial

Quando abri a porta
tinham dois versos,
um olhando pro outro...
(foco trivial)
diziam suas vozes amordaçadas:
- Eu te amo!
- Eu também te amo!

Lee Flôres Pires

domingo, maio 08, 2005

Quando eu Decidi

"... Quando eu decidi ficar límpido
e buscar corpo a corpo a infelicidade
para jogar os dados,
encontrei a mulher que me acompanha
a torto e direito
na noite
na nuvem e no silêncio..."

(Pablo Neruda)


" ...Chame do jeito que quiser:
medo, coragem ou amor...
... faça disso o que quiser:
é um presente que eu te dou..."

(Humberto Gessinger)



segunda-feira, maio 02, 2005

Leve, me leve.

Correr como se corre com olhos fechados
não olhar esquinas
não esperar sinais
não evitar as faceis rimas
não forçar virtudes originais.
Correr como se corre com os olhos molhados
não olhar entre as rimas
não esperar rituais
sejam eles de sina
ou de utopias magistrais.

E se o choro franze a minha testa
vejo as últimas pegadas que você deixou pra trás.
E se era elo,
meu mar,
eu amo o elo
de amarelo sonho de sonar.

Choro,
olhos,
meu aberto peito em destroços...
do amor!

Amo sim
o adeus sono subliminar!

Amo sim todo amor que tiver que amar!


Lee Flôres Pires

terça-feira, abril 26, 2005

Pedraços

"Quase só dela parto
dizia e tonto
se a boca dentro pedras chamadas
Aurora
desarvorada e rosa rompe.

Resto
Meu coração feito em pedraços."


Se a boca cala a fome dos seus olhos,
quero abri-lá até a cegueira dos olhos deles.
Se o teu cabelo devora o meu verso,
quero suar o suor ateu.
Do nosso dezembro feliz,
dos nossos encontros quase que ardis.

Calar a boca que grita o teu sexo,
pedir pra sumir,
é afronta sem nexo.

Te vê e me fortalecer,
é o tiro certo.
Sucumbir diante de mal amados
é ventre pulsando incesto.

Minha boca não cala,
antes da sua boca cala-lá.
Minha boca não cala,
na ausência da sua.

Na ausência da tua virtude nua
grita meu ego histérico.


Lee Flôres Pires

quinta-feira, abril 21, 2005

Um poema (para) sobre/viver

Devo deixar os versos saírem
não devo fechar portas,
ignorar janelas abertas.
Devo deixar sair dos seus olhos
a poesia nossa de cada dia.
Não como quem entorpece a dor
ou cirugicamente custura cortes.
Devo deixar-me embriagar de amor,
e sobreviver sobre mortes.

Nascer
Viver
Morrer
O ar que eu tenho pra respirar.
Perverter
Santificar...
É pura falta de opção.


Lee Flôres Pires

domingo, abril 17, 2005

Obrigado Neruda

Obrigado Neruda,
por estes dias de multidão e desamparo.
É tão pouco, tampouco tanto...

Perdão Neruda
se nossos olhos fechados
varrem a sua morte.

Lee Flôres Pires

terça-feira, abril 12, 2005

Negra

à Brisa Paim

Astros vorazes...

cólica escrota,
volátil embriaguez...
sonora solidez.

Confronto desmilingüido,
sórdida afronta de deuses.
Vodca engatilhada e pronta,
sonda medieval...
lágrima decimal.
Existência lógica e tonta.

Caricatura do meu tendão
pós-ruptura do meu coração...
sangue...
sangue...
mórbido reflexo sedento,
corte letal!!
Ferida sem(pre)i-aber(ta),
morte filosofal!!!

Hermética dor!!
secreção periférica,
eclética de humor!!
Ferrenho humor,
odor
da flor
negra...
sabor
da cor
negra...

e entre a melancolia dos meus passos
surge-me uma leve pluma existencial:
- qual escuridão me ilumina?


Lee Flôres Pires

domingo, abril 03, 2005

Letra do silêncio

Das utopias 

"Se as coisas são inatingíveis... ora!
não é motivo para não querê-las...
que tristes os caminhos se não fora
a presença distante das estrelas!"
(Mário Quintana)



O silêncio do sino badala.
O abismo distante da fala
quebra o instante do ritmo.

Som da solidão
e seu olhar...
letra e sangue
e seu olhar...

O silêncio do sino badala.
O abismo distante da fala...
e era aquele instante!!


Lee Flôres Pires

segunda-feira, março 28, 2005

Belas, sombras...

Aquela ótica vertebrada
longe mediocridade
longe... satisfação inapta.
Saudades, saudades,
complexas saudações.
Vida
vida...
viver!
Viver?
Carência,
obsolescência,
violência,
sal...
doce...
o nada conveniente,
a dose comprada
com o troco do pão.
O silêncio tâo surdo,
aquela bela sombra
dos agudos toques
dos agudos choques
são tão fortes.
são tão graves os cortes
dos timbres agudos.

Poesia que põe mesa
que mata a fome
de quem come
e mata um homem se não come.

Aquela ótica vertebrada
mediocridade longe
satisfação complexa
Saudação inapta
Vida
Vida...
Poesia que mata!

Lee Flôres Pires 24/03/2005

domingo, março 20, 2005

Like a rolling stone

Essa janela para lugar algum,
sempre fechada, nos vigia.
O disco que toca faz o quarto flutuar.
Qual será o álibi?
- Beijar esse corpo!
Mas quem beijou?
E que corpo? E quem vai lembrar?

Sexo de morte,

vermes de sorte,
lençóis impregnados e brancos,
fim de noite!

Início de dia,

sem casa, 
como uma pedra rolante no vazio,
toco dó e sol maior de um refrão sem norte,

sem subtons: - Um, dois, três... corte!!!
Ficção de amor no videoclipe.
- Trocentésimo take... gravando!!!

Bocas de Picasso,
dores Almodôvar,
cores de Frida Kahlo,
geografias de Neruda,
acordes de Dylan.

E de nada vale essa música!?

Essa mentira de poeta que finge dor.
Fingidor que deveras sente,
e acorda sob o sol na fresta da janela,
que ilumina esses corpos nus.


Lee Flôres Pires - 20-03-2005


sexta-feira, março 18, 2005

Minha poesia morreu

(um minuto de silêncio antes da explosão)

Minha poesia morreu
ali na esquina
atropelada por um destes automóveis velozes
morreu ali...
bem ali, ao olhar de todos que não viam nada.
Foi num desses dias trágicos que minha poesia morreu,
num desses dias que corre sangue nas veias,
foi num desses dias que minha poesia ficou estendida naquele asfalto
diante de olhares submissos
diante da falta de vontade
diante de falta da falta da falta...

Minha poesia morreu,
eu quis fazer um minuto de silêncio,
eu quis tudo
e tudo doendo me quis.
Doendo eu,
doendo o mundo
e minha poesia já não dói nada
já não corre sangue algum,
o sangue apenas frita no sol
no chão do asfalto em brasa,
espalhado em marca de pneus.


Lee Flôres Pires

terça-feira, março 08, 2005

Excesso

Permita-me
Dizer palavras desconexas
Em meio a estreitas verdades
Só para que eu te confunda
E te precipite a raiva
E ria da sua surpresa
E esnobe a tua impaciência
Permita-me
A arrogância imperturbável do meu ego desequilibrado
E a euforia descontrolada da minha voz
Permita-me
O prazer da violência
A inconseqüente avidez do meu corpo
E a imprevisibilidade de minhas veias ébrias
Permita-me
Fazer desta incompreensível mudança
Um silêncio súbito e agudo em sua mente
Permita-me dizer de todas as maneiras
As mesmas mentiras
Só para descobrir
A mentira que restou
A mentira que eu sou
Só esta noite,
Permita-me o excesso.

Clarissa França

sábado, março 05, 2005

Teu tão meu

Teu espelho não te enxerga,
tua voz não te cala,
teu desejo não te explica,
tua freqüência não te capta.

Teu olhar que silencia,
tua estúpida fanfarra,
teu corpo que se cobriu de fantasia,
tua ausência pela sala.

Minha dor
que eu não sinto,
de tanta dor
que eu sinto,
já me entrega,
já não salva.

Minha flor
que eu não minto,
de tanta flor
que eu minto,
já não me entrega,
já se salva.

Teu sabor,
tua dose certa -
o éter da sua vida.
Teu odor,
tua fala engasgada -
minha estrela decaída,

minha violência,
minha estrada,
minha relutância,
minha pousada...

fim de tarde,
fim de dia,
morre sol
morre utopia.

Fim...
fim de adeuses tão bizarros,
fim...
e eu que apenas comecei com as tuas mortes,
me perco nos fins de teus dias.



Lee Flôres Pires 05-03-2005

Sala sem janela

Eis que se apresenta o céu
com seus olhos que brilham.
Esperança mesquinha
confiança unilateral.
Eis que se apresenta firme,
cheio de si
explodindo de voz esmagadora.
Diafragma...
timbre multicor
garganta...
profanando febre
silenciando libertinagens
ao som de trombetas enfurecidas
e harpas envenenadas.

E passa o céu
e os meus pés no chão
castigam meu calcanhar.
E passa o céu 
coberto de nuvens
manto...
tapete de algodão
pra eu pisar com meus pés pisados
esta celeste cura.
Como um sopro depois da mordida
como um coice depois da queda
como esta janela sem vista
como esta sala sem janela
como esta poltrona sem sala...
janela infinita
manhãs infinitas...
comendo o pão que o diabo amassou.


Lee Flôres Pires 19-10-2004 

segunda-feira, fevereiro 14, 2005

Ode ao ódio

Ódio da estrofe
da cadeia dessas sí­labas
do enclausurado ritmo.

Ódio da boca grangrenótica
desses paladares medonhos
dessas rimas tão perfeitas.

(queria ser um poema
captar o instante não instantaneo
sublinhar as cores incolores
navegar amores tão atores
e morrer sem rimar)

Ódio as catequeses cartesianas
de majestrais castrações
de mestres bilaquianos.

Ódio as odes metafísicas
as metaforas metoninecas
as aladas aliterações.

subúrbio roubado de mim
poema
poesia latente...
reticências
soar suando na vértice
do meu triângulo.

Ódio a poesia
Ódio...
Ódio a mim.
Lee Flôres Pires 14-02-05

terça-feira, fevereiro 08, 2005

Carnaval

Quando procuro o início de tudo, esbarro em monólogos dissimuladamente imaginários... cegueira e ódio de Fast-food são humanos até demais. É um suicídio por segundo... ruas... luzes de mercúrio, um desastre em cada uma das esquinas vazias. O relógio despeja as horas nos meus sentidos como quem percorre por mera obrigação um caminho pisado.

- São dez horas da noite! Bem, poderia ser qualquer hora, não faria diferença, pois quero apenas Caminhar e acender um cigarro. Gesto nitidamente mecânico de quem procura a pessoa mais certa pra não pensar mais... pensar!?? E pensar que Longos caminhos se abrem na noite... Óperas sem títulos  peças sem falas, eus digladiando chances lógicas de prazer! Prazer!??

 - Muito prazer, meu nome é otário! Cavalgando em noites fanfarronas agarrado em minhas bandeiras de trapo. Com uma única coisa na cabeça: a certeza da estrada...

Lee Flôres Pires

sexta-feira, fevereiro 04, 2005

Tanta Coisa pra Dizer

Tanta coisa pra dizer
dialética latente
de praças, portões e quintais.
Aquela velha artrite
dos vocábulos singulares
eternos,
modernos...
clichês!

Tanta coisa pra dizer
debaixo dessa lona,
tanta coisa...
quem me dera ser palhaço!
Apenas um, dos milhares que sou.
Quem me dera entre inventos suburbanos
profanar neologismo barato
seduzir ébrios corações
capturar sorrisos sensatos
diagnosticar revoluções.

Tanta coisa pra viver...
viver pra não morrer
sentir pra não sofrer
destruir pra pactuar
perverter pra sempre amar,
mas esse teu cheiro de sexo,
Este teu jeito conexo de só flertar
me deixa com tava coisa pra dizer.


Lee Flôres Pires

quarta-feira, janeiro 26, 2005

Neste Peito

Nestes chãos que me fizeste lua
tu me choves a carne crua.
Nessa terra de barro e pedra
me fizeste ser tão tua.

Mera manhã,
retalhos de uma noite nua.
- Arde-me, Sol!
Violenta essas retinas soturnas
pois esse abismo
é o elogio da própria cura.

Loucura?
Louca cura
- Os loucos também curam!
Só os loucos ardem
só os loucos seguram...

Nestes chãos...
nesses sóis
nesses peitos...
neste peito que bate!
Bate... bate... bate!!
E bate muito bem!!!
Nessa loucura
Nesse ismo de dizer amém.


Lee Flôres Pires 28-10-2004 

domingo, janeiro 23, 2005

Recorte de Amor

Sentir propagar
nas lentes do seu olhar
pairar no ar
cheiro de vestígios...
ah! Era aquela poesia
que mofou no baú
das velhas tralhas.
Ah! Era aquela poesia,
poesia de fina flor
Flor de fina poesia
fina poesia de flor.
Que declamava
versos de amor
que conjugava
o verbo amar...

... recorte de amor
subsistente, prefaciado.
Melodias de tambor
batuques arpejados
recorte de amor...
foto desfocada.


Lee Flôres Pires

quinta-feira, janeiro 20, 2005

O Silêncio

(Minha poesia é surda,
mas ouve muito bem o silêncio)

O Silêncio:

- Minha poesia é barata
destas que roem bagas
destas que recitam violência
minha poesia é cara
destas que são souvenir raro
destas que ressuscitam santidades
minha poesia...
é perfume dantesco
é escarro bizarro
é pérolas à porcos
é porcos emperolados
minha poesia é um cara como eu:
assim sem palavras
assim sem nexo
assim... assim...
assim sem você.


Lee Flôres Pires

sábado, janeiro 15, 2005

Expressão Pré-Fabricada

Introdução:

Não adianta perverter a lógica,
a palavra que te ama
encarrega-se da maré.
A vela, o vento, e a esquina
te procuram.
O vício, o verso e a rima
te curam da falta de norte.

Náufrago inexistente...
embarcação cariada.

Não adianta embaralhar
virar de ponta a cabeça.
O poema que te ama,
te ama
e só".


Lee Flôres Pires