segunda-feira, março 28, 2005

Belas, sombras...

Aquela ótica vertebrada
longe mediocridade
longe... satisfação inapta.
Saudades, saudades,
complexas saudações.
Vida
vida...
viver!
Viver?
Carência,
obsolescência,
violência,
sal...
doce...
o nada conveniente,
a dose comprada
com o troco do pão.
O silêncio tâo surdo,
aquela bela sombra
dos agudos toques
dos agudos choques
são tão fortes.
são tão graves os cortes
dos timbres agudos.

Poesia que põe mesa
que mata a fome
de quem come
e mata um homem se não come.

Aquela ótica vertebrada
mediocridade longe
satisfação complexa
Saudação inapta
Vida
Vida...
Poesia que mata!

Lee Flôres Pires 24/03/2005

domingo, março 20, 2005

Like a rolling stone

Essa janela para lugar algum,
sempre fechada, nos vigia.
O disco que toca faz o quarto flutuar.
Qual será o álibi?
- Beijar esse corpo!
Mas quem beijou?
E que corpo? E quem vai lembrar?

Sexo de morte,

vermes de sorte,
lençóis impregnados e brancos,
fim de noite!

Início de dia,

sem casa, 
como uma pedra rolante no vazio,
toco dó e sol maior de um refrão sem norte,

sem subtons: - Um, dois, três... corte!!!
Ficção de amor no videoclipe.
- Trocentésimo take... gravando!!!

Bocas de Picasso,
dores Almodôvar,
cores de Frida Kahlo,
geografias de Neruda,
acordes de Dylan.

E de nada vale essa música!?

Essa mentira de poeta que finge dor.
Fingidor que deveras sente,
e acorda sob o sol na fresta da janela,
que ilumina esses corpos nus.


Lee Flôres Pires - 20-03-2005


sexta-feira, março 18, 2005

Minha poesia morreu

(um minuto de silêncio antes da explosão)

Minha poesia morreu
ali na esquina
atropelada por um destes automóveis velozes
morreu ali...
bem ali, ao olhar de todos que não viam nada.
Foi num desses dias trágicos que minha poesia morreu,
num desses dias que corre sangue nas veias,
foi num desses dias que minha poesia ficou estendida naquele asfalto
diante de olhares submissos
diante da falta de vontade
diante de falta da falta da falta...

Minha poesia morreu,
eu quis fazer um minuto de silêncio,
eu quis tudo
e tudo doendo me quis.
Doendo eu,
doendo o mundo
e minha poesia já não dói nada
já não corre sangue algum,
o sangue apenas frita no sol
no chão do asfalto em brasa,
espalhado em marca de pneus.


Lee Flôres Pires

terça-feira, março 08, 2005

Excesso

Permita-me
Dizer palavras desconexas
Em meio a estreitas verdades
Só para que eu te confunda
E te precipite a raiva
E ria da sua surpresa
E esnobe a tua impaciência
Permita-me
A arrogância imperturbável do meu ego desequilibrado
E a euforia descontrolada da minha voz
Permita-me
O prazer da violência
A inconseqüente avidez do meu corpo
E a imprevisibilidade de minhas veias ébrias
Permita-me
Fazer desta incompreensível mudança
Um silêncio súbito e agudo em sua mente
Permita-me dizer de todas as maneiras
As mesmas mentiras
Só para descobrir
A mentira que restou
A mentira que eu sou
Só esta noite,
Permita-me o excesso.

Clarissa França

sábado, março 05, 2005

Teu tão meu

Teu espelho não te enxerga,
tua voz não te cala,
teu desejo não te explica,
tua freqüência não te capta.

Teu olhar que silencia,
tua estúpida fanfarra,
teu corpo que se cobriu de fantasia,
tua ausência pela sala.

Minha dor
que eu não sinto,
de tanta dor
que eu sinto,
já me entrega,
já não salva.

Minha flor
que eu não minto,
de tanta flor
que eu minto,
já não me entrega,
já se salva.

Teu sabor,
tua dose certa -
o éter da sua vida.
Teu odor,
tua fala engasgada -
minha estrela decaída,

minha violência,
minha estrada,
minha relutância,
minha pousada...

fim de tarde,
fim de dia,
morre sol
morre utopia.

Fim...
fim de adeuses tão bizarros,
fim...
e eu que apenas comecei com as tuas mortes,
me perco nos fins de teus dias.



Lee Flôres Pires 05-03-2005

Sala sem janela

Eis que se apresenta o céu
com seus olhos que brilham.
Esperança mesquinha
confiança unilateral.
Eis que se apresenta firme,
cheio de si
explodindo de voz esmagadora.
Diafragma...
timbre multicor
garganta...
profanando febre
silenciando libertinagens
ao som de trombetas enfurecidas
e harpas envenenadas.

E passa o céu
e os meus pés no chão
castigam meu calcanhar.
E passa o céu 
coberto de nuvens
manto...
tapete de algodão
pra eu pisar com meus pés pisados
esta celeste cura.
Como um sopro depois da mordida
como um coice depois da queda
como esta janela sem vista
como esta sala sem janela
como esta poltrona sem sala...
janela infinita
manhãs infinitas...
comendo o pão que o diabo amassou.


Lee Flôres Pires 19-10-2004