terça-feira, abril 26, 2005

Pedraços

"Quase só dela parto
dizia e tonto
se a boca dentro pedras chamadas
Aurora
desarvorada e rosa rompe.

Resto
Meu coração feito em pedraços."


Se a boca cala a fome dos seus olhos,
quero abri-lá até a cegueira dos olhos deles.
Se o teu cabelo devora o meu verso,
quero suar o suor ateu.
Do nosso dezembro feliz,
dos nossos encontros quase que ardis.

Calar a boca que grita o teu sexo,
pedir pra sumir,
é afronta sem nexo.

Te vê e me fortalecer,
é o tiro certo.
Sucumbir diante de mal amados
é ventre pulsando incesto.

Minha boca não cala,
antes da sua boca cala-lá.
Minha boca não cala,
na ausência da sua.

Na ausência da tua virtude nua
grita meu ego histérico.


Lee Flôres Pires

quinta-feira, abril 21, 2005

Um poema (para) sobre/viver

Devo deixar os versos saírem
não devo fechar portas,
ignorar janelas abertas.
Devo deixar sair dos seus olhos
a poesia nossa de cada dia.
Não como quem entorpece a dor
ou cirugicamente custura cortes.
Devo deixar-me embriagar de amor,
e sobreviver sobre mortes.

Nascer
Viver
Morrer
O ar que eu tenho pra respirar.
Perverter
Santificar...
É pura falta de opção.


Lee Flôres Pires

domingo, abril 17, 2005

Obrigado Neruda

Obrigado Neruda,
por estes dias de multidão e desamparo.
É tão pouco, tampouco tanto...

Perdão Neruda
se nossos olhos fechados
varrem a sua morte.

Lee Flôres Pires

terça-feira, abril 12, 2005

Negra

à Brisa Paim

Astros vorazes...

cólica escrota,
volátil embriaguez...
sonora solidez.

Confronto desmilingüido,
sórdida afronta de deuses.
Vodca engatilhada e pronta,
sonda medieval...
lágrima decimal.
Existência lógica e tonta.

Caricatura do meu tendão
pós-ruptura do meu coração...
sangue...
sangue...
mórbido reflexo sedento,
corte letal!!
Ferida sem(pre)i-aber(ta),
morte filosofal!!!

Hermética dor!!
secreção periférica,
eclética de humor!!
Ferrenho humor,
odor
da flor
negra...
sabor
da cor
negra...

e entre a melancolia dos meus passos
surge-me uma leve pluma existencial:
- qual escuridão me ilumina?


Lee Flôres Pires

domingo, abril 03, 2005

Letra do silêncio

Das utopias 

"Se as coisas são inatingíveis... ora!
não é motivo para não querê-las...
que tristes os caminhos se não fora
a presença distante das estrelas!"
(Mário Quintana)



O silêncio do sino badala.
O abismo distante da fala
quebra o instante do ritmo.

Som da solidão
e seu olhar...
letra e sangue
e seu olhar...

O silêncio do sino badala.
O abismo distante da fala...
e era aquele instante!!


Lee Flôres Pires