sexta-feira, agosto 26, 2005

Com os próprios olhos.

- Não! Isso não é um poema.
As lágrimas que aqui pousaram
nunca virarão uma canção:

- Te vi ali na esquina!
- Foi?
- Foi sim... e vi suas máscaras de vento.
- Máscaras?
- Sim, máscaras.

- Não! Isso não é pra você.
Os destinos traçados por esta esquina
nunca desvirtualizou ninguem:

- Ei, te vejo em outra esquina!
- É?
- É sim... e com as máscaras que você quiser.
- Máscaras?
- Sim, máscaras.

- Não! Não olhe assim pra mim.
Você nem quis saber por onde eu ando.
É verdade, eu ando mesmo assim.
Mesmo que esse dia não chegasse!

- Ei, olhe pra mim!!
Com os próprios olhos.
Na veia da vida,
no vício visceral.
E depois me diga,
se é abismo ou providencial.


Lee Flôres Pires

quarta-feira, agosto 24, 2005

Quando for manhã...

Quando eu acordar amanhã
não lembrarei dessa janela,
desse copo de vinho.
Quando eu acordar amanhã
não lembrarei dos olhos dessa mulher,
que me guarda a sua nudez
e a tantos outros por quinze minutos,
deitada ali na cama;
nem tampouco lembrarei
a quantas andam tuas vitrines,
teus holofotes mainstream.
Quando eu acordar amanhã
não lembrarei da minha vida
escorrendo entre os dedos.
Meu verbo não será mais carne,
quando eu acordar amanhã
no tempo que aqui jazia!


Lee Flôres Pires

segunda-feira, agosto 15, 2005

Não creio: temo!

Abri a porta da noite:
aquele sorriso entre dentes
de me tirar o sono,
de me calar a boca;
aquela saudade...
talvez um poema.
Ou.
Pedaços do dia.

Nas veias do silêncio:
o melhor elogio;
a anti-poesia das palavras;
a surdez sonora dos sentimentos.
Nas veias do silêncio:
- ouço:
- não sou, não sei: tenho!

Lee Flôres Pires

terça-feira, agosto 02, 2005

Morte e vida socialista

O prato na mesa
a mesa na sala
a sala vazia
vazia e casta.
Olhando a parede
a parede que cala
cala o vídeo
a música de massa.

Morte, morte, morte...

O corpo na cama
a cama no quarto
o quarto vazio
vazio e infarto.
Olhando a cortina
a cortina que baila
baila no vento
o vácuo da casa.

Morte, morte, morte...

Morte e vida
vida é morte
trincheira libida
acaso e sorte.
No fundo do poço
a mesma retórica
o último esboço
favela bucólica.

Morte, morte, morte...

... e vida!?
Qual esquina perigosa devemos cruzar?
... me diz!!
e você me olha?
... me grita!!!

... vida vida vasta vida
se eu me chamasse socialista
seria uma rima não uma solução
vida vida vasta vida
mais vasta é a revolução!

Lee Flôres Pires