quarta-feira, fevereiro 22, 2006

Céu de Baunilha

- Foi você quem veio ontem, depois que abriu os olhos, dizer que o sonho não acabou! Mas não é sobre isso que quero escrever. Quero escrever sobre o que vejo. A principio eu quis parir um poema. O poema não nasceu, nasceu um céu de baunilha na minha frente, um céu daqueles de roubar uma lágrima. Lembrei de você! Mas não é de você que eu estou falando, falo de mim. Falo das lembranças do filme que vi. Falo do conceito pré-fabricado, pois antes de tudo: o conceito ( minha mania de fazer arte conceitual). Talvez eu soe pretencioso, mas isso não será novidade para mim.

Acho lógico perguntar qual é o objetivo do que quero escrever, não é insensibilidade, eu sei. Mas peço um pouco de paciência a quem queira ler. Não é fácil falar dessas coisas assim. Não costumo falar da minha vida nos meus textos. Irei escrever sem pensar muito, confesso, para sair a emoção do instante, apesar de não ser um poema (o poema é o captar do instante). Vou começar falando do que me impulsionou a me enveredar por essa viagem prosaica.

Quando acordei hoje, me veio um trecho de uma música dos engenheiros: "a vida não pode ser um contagotas na tua mão, chuva que não chove, sol que não sai. A vida não pode ser medida com precisão, motor que não se move, nuvem que não se vai". Isso me fez sentir algo estranho, algo que não sei explicar. Apenas sei que não me sinto o mesmo depois de sentir. Eu mesmo quis esquecer tudo o que eu fui antes disso, quis esquecer as lembranças do filme que vi. Penso que isso seja um pouco infantil, mas não me envergonho disto, atire a primeira pedra... e não preciso dizer o resto. Sei que talvez não seja importante o que eu preciso. Sei muito bem como se é possível ignorar essas coisas. Portanto não me importo. Portanto voltemos ao texto, voltemos aos meus sentimentos antes apenas meus. Crio agora o anti-campo de força dos sentimentos, com o objetivo de filmar as atenções e tensões por eles despertadas. Que irônico! Volto a falar do que sinto. Sinto uma vontade de rir disto. Sinto muito pelo meu eterno retorno e pela vontade de chorar e ficar só. Sinto também que nunca me sentir tão absorvido pelo o que já disse. O fim está no meio, eu disse, e sou escravo dos meus próprios erros. Por favor, entendam. Não quero perdão, quero silêncio, pois só ele pode me julgar. Só ele viu o estragos que trago comigo a noite, as vozes que ouço na cama a noite e meu medo do escuro.

Vamos adiante nos fatos: a tarde sai sem rumo, fumei uns cigarros sem muito prazer. Andei esperando encontrar alguém na rua, esperando algo que me distraisse (se ainda não disse não gostei nada do que senti pela manhã), nada apareceu, só meu passos distraídos pela rua. Então resolvi entrar no ônibus, e comecei a ler uns textos da ufal, que pouco me prenderam a atenção. Mas me sentia numa apatia tranquila, pouco preocupante. E quando quase comecei a sentir minha respiração de novo, veio-me ele. O sentimento voltou. vieram novas palavras em minha cabeça: "diga adeus ou não diga nada". Voltei a me sentir estranho. Que estranho se sentir estranho! É muito estranho se sentir assim, muito estranho! Desejei tanto a apatia de novo, a falta de sensação, desejei de volta meu coração que não bate nem apanha. Esse coração de agora não! Esse sentimento agora não! Desejo em vão, desejo impossível. Agora só me resta o filme que vi, o caminho que eu não devia passar, a escolha que não quis e escolhi, e o dia que determinou o fim. Bem, tenham calma! Lógico que não sei qual foi o dia que determinou o fim, nem sei se ele existiu. Só sei do coração, só sei do filme que vi... e sei que o final não chegou na superfície, foi profundo... foi na pele.


Lee Flôres Pires

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