domingo, novembro 18, 2007

Faz de conta


era claro espelho d’água
perfeição que a pedra destruiu

uma onda...mais uma onda
outras ondas e já não tem fim

agora é centro do movimento
a qualquer momento pode transbordar

quando a pedra caiu na água
quando o espelho foi ao chão
quem estava ao teu lado
quem estava com a razão

a pedra afundou
a onda inundou
faz de conta que eu fui mais legal

malas prontas
de hoje em diante mais distante
talvez menos mal

desencanto na garganta
faz de conta que eu fui mais legal

quando a pedra caiu na água
quando o espelho foi ao chão
quem estava ao teu lado
quem estava com a razão

a pedra afundou
a onda inundou

faz de conta que eu fui mais legal

(Gessinger/Melissa Mattos)

terça-feira, outubro 16, 2007

Estela Amorosa

Posso fingir que nada aconteceu
após esse telefonema?

Olho pela janela, a montanha, os prédios.
Posso sair, comprar roupa nova.
Ir ao cinema, ao bar, concerto,
respirar fundo, dizer, tinha que acontecer,
dizer, amei-a muito, pensar
que o passado já começou.

O telefonema em mim ressoa.
Sobre um sentimento assim não se põe uma pedra
e se segue em frente.
Mesmo que eu siga, sem olhar pra trás
a pedra
florescerá
secretamente.


Afonso Romano de Santanna



quinta-feira, setembro 27, 2007

Sino e sangue



O silêncio do sino badala
o abismo distante da fala
quebra o instante do ritmo.
O silêncio cínico da bala
o corpo caído que cala
fere a instância do íntimo.
O silêncio, o sangue e a sala
a mesa vazia que embala
a sonora solidão dos dignos.

O silencio do sino badala
o abismo distante da fala...
e era você...
e era meu corpo,
meu sangue e a bala
que varava meu peito.

E era você...
e era aquele instante.


Lee Flôres Pires

quinta-feira, agosto 16, 2007

Amor Quente

preto no branco
amarelo, um pouco de azul
noite estrelada
peito feliz

olho no olho
pintura a quatro mãos
tintas claras
o mesmo cigarro
isso é amor
amor quente

água de coco pra dois
porta do carro aberta
vento morno da areia
palavras mentirosas
isso é amor
amor quente

cama de casal
luz bem baixinha pra ver
gemidos de dor e alegria
sair de si por três minutos
isso é amor
amor quente

supermercado, escolher iogurte
fazer compras juntas
brigar por besteira
isso é amor
amor quente

tomar café, banho, brisa
champanhe, tristeza, beleza
cremes, músicas, sucos, água
drogas, fumo, passar perfume
isso é amor
amor quente

(Cazuza/Gessinger)

domingo, agosto 05, 2007

Coração em pedaços


No coração despedaçado
a minha ternura de graça
o meu peito aberto
os cacos pelo chão.

No coração despedaçado
a pureza delicada da paixão
o bobo olhar triste de decepção
os cacos na minha mão.

A dor não é mais forte
que o amor que sinto.
A tua boca não é apenas
o elo amargo do que minto.

Apenas um coração
procurando a veia -
o furo que fere a sorte.

Amor é simples
como a morte.
Por isso te amo
meu amor.

Te amo
com meu coração em pedaços.


13/07/2007 Lee Flôres Pires

segunda-feira, julho 30, 2007

Batom Furta-Cor


Abriu os olhos.
Vultos, vozes,
vômito e dor.
Bela manhã de ressaca,
belo batom furta-cor.

Olhos abertos,
inevitavelmente abertos.
Sem fuga...
lembranças de uma noite turva,
lembranças de um curto amor.

O dia se foi...
ela também.
Ficou o batom,
a dor de cabeça,
aquele olhar fúnebre,
e o aroma de poesia amarga.


Lee Flôres Pires 13/07/2007




quinta-feira, julho 26, 2007

Vinho, Amor e pernas

A boca aberta
No olho o espanto
No copo o vinho tinto
O Amor entre as pernas

O beijo entre dentes
A lágrima no rosto vermelho
O copo vázio
A falta de éter

(... e o dia continua passando lentamente)

As bocas sozinhas
Os olhos fechados
As lágrimas sequinhas
Os dentes cariados

(... e o dia continua estanque)

Passa eu
Passa a boca sozinha
Nuvens de lágrimas no céu vermelho
encerram um outro dia

Um novo dia
o azul tece a manhã
com um lirismo
de engasgar o poeta.

(... e outro dia vai passando)

Os olhos fechados
As bocas sozinhas
Sem lágrimas
Sem dentes


Lee Flôres Pires 12.07.2007

terça-feira, maio 01, 2007

O Vício do Poema



O vício do poema
é o cigarro apagado
é a luz não acesa
é a palavra calada.

O vício do poema
é incurável
como a mão que não acena
como a dor que não cala.

O vício do poema
é a puta
é o michê da esquina.

O vício do poema
é o verso
é a pobre rima.

O vício do poema
sou eu
é você
é o foco clichê.


Lee Flôres Pires

segunda-feira, abril 23, 2007

O Poema se desfaz



Faço um poema
e a janela continua aberta
e bate o mesmo sol.
Faço um poema
e na mesma rua os carros passam
e continua caindo a chuva.

Faço um poema
e o mundo é o mesmo
não muda nada
o mesmo coração de zinco
a mesma boca cheia de dentes amarelos
sem amor.

De que vale o poema
se tudo é vácuo?
Se a ausência é farta?
Se o silêncio me ensurdece?

De que vale ser poeta
se não sou alegre nem triste?
Se não há caminhos pro excesso?
Se não posso transbordar?

Faço um poema
Inerte.
Aceito o fardo do poema
que me vale o pão
que não me vale nada.

Faço um poema
e o poema não faz nada.


Lee Flôres Pires

quarta-feira, abril 11, 2007

segunda-feira, março 19, 2007

Off Line



É fácil ficar no meio
entre o dito e o não dito
entre o feito e o não feito.

É muito fácil não se prender
não ser ética
não ser eter
surfar entre as escolhas.

É muito fácil não carregar o peso do mundo,
ser leviano é tão leve.
É tão leve se desligar,
aparecer off-line.

Pra mim a poesia da vida é tão cara.

Eu não quero dormir tranquilo.
Quero o peso do mundo todo em minhas costas.


Lee Flôres Pires

domingo, março 18, 2007

Declare Amor


Declare amor
e esqueça que o mundo está em guerra.
Sinta apenas o seu peito,
o seu ego que devora.

Declare amor
e declare guerra
com o que está além do ego
sobreposto ao peito que apavora.

Declare amor
sem medida
sem escola.
Declare amor
por vício
por opção.

Declare...

sem lógica
sem exatidão
pois o que pro coração era poema
virou repetição.

Amor
Amor
Amor
pura repetição.


Lee Flôres Pires


sexta-feira, março 16, 2007

O Poema não ama

O Poema não ama ninguém,
nem tão pouco fala de amor.
O Poema apenas flerta com as sílabas,
presa uma as outras
por pura falta de opção.

O Poema não ama ninguém,
nem tão pouco quer amar.
O Poema apenas trepa com as vogais
e arrota consoantes
por puro excesso de tesão.

O Poema não ama ninguém,
nem tão pouco sabe amar.
O poema apenas e(é) só
por puro excesso de liberdade,
por pura falta de vergonha.


Lee Flôres Pires



quarta-feira, fevereiro 28, 2007

A Casa que Devora

a Gabi Ivo

Fingir ter sentido
reviver memórias.
Criar histórias.
Guardar palavras,
calar amores.
Inventar vitórias.

Imaginar músicas sem fim
matar o instante
viver uma vida estanque
de preferência não rimar.
Catalogar as ruas da cidade
o pavor de ir lá fora
a casa que devora
de preferência não ficar.

O clichê de sempre.

A mentira sem importância.

(é verdade a mentira que sai da boca de quem só diz mentiras)

Sem a coragem que a distância dá
no mesmo tempo
no mesmo lugar
nada é tão fácil.


Lee Flôres Pires

terça-feira, janeiro 30, 2007

Do Amor


Poema sem palavra,
música sem som...

quarta-feira, janeiro 03, 2007

PseudoPoema


Desculpe-me
pelo sangue em minhas veias,
pela vida tão clichê,
por meu olhar tão demodê.

Desculpe-me
se por último foi cena
pseudo-poema,
da nossa divina tragédia.
Desculpe-me
se meu amor te sufoca
pseudo-porta,
que convido a atravessar.

Desculpe-me por nada,
por tudo que sou,
pelos versos que amou,
por não suportar o carinho e chorar.


Lee Flôres Pires