sábado, janeiro 26, 2008

Mão sem luva

à Brisa Paim

Entregaria em sua mão
o rubro sangue do meu rosto,
o amargo suor entre meus dedos.

Entregaria meu peito,
minhas nódoas e rancores,
duras pestanas em minhas retinas.

E guardaria teus beijos e risos,
serenos olhares atores,
de sina, culpa e alvorada.

Miro-te.
Trago o cigarro
no vértice,
nos côncavos conchavos.

Farto-me.
Na deflagrada rota dos seus sabores.

Chupo o caroço
de supostos prazeres,
de fruta cor-de-simulacros.

Verdade?
Entrego meu corpo aos pássaros.


Lee Flôres Pires

sábado, janeiro 19, 2008

Havia portas...



A mesa farta
a boca cheia
o sono que mata...
o corpo, álcool, cerveja.

Monstros na esquina
abismo que nos move de inerte.

Cidades, bombas, metrô.
Violência nos desfiles: moda retrô.

Cabide,
roupa,
vazio...

Jogo,
sinuca,
xadrez...

xeque mate,
vazio...
cegueira,
falta de toque.

Eu a vi de triste tão pequena,
cabelo cortado,
ausência satisfeita.

...

(...)

Noite

(!)

Celeste porta do não pensar.



Lee Flôres Pires



segunda-feira, janeiro 14, 2008

Porcelana chinesa



Por enquanto vai
Sua boca
Seu cabelo artificial.
Por enquanto serve
Seu olhar
Seu flerte banal.

Bela porcelana chinesa
Pseudo bibelô de armário
Do seu sexo sou réu primário
Sibilo seu gosto de vida burguesa.

Por enquanto vai
Seu anel turquesa
Seu prato imposto à mesa.
Por enquanto...
Meus braços atrofiados
Minhas mortes em tua janela.

Por enquanto serve
Seus tambores que não pensam em rufar
Como quem evita o íntimo
Como quem come sem olhar.

Pois é noite,
Meu bem,
Ela nos nega enxergar.
O que o encanto do dia nos serve
De café da manhã.



Lee Flôres e Tayra Luz

quinta-feira, janeiro 03, 2008

Página rasgada



Na boca o bronze
secou a veia,
calou o verso
e rasgou o beijo da amada.

Na boca
faltou a fala:
o vinho,
o sangue,
a roupa manchada.

Era o amor nas páginas da Caras:
Glamour,
lente embaçada.

Era o amor...
a página rasgada.

Lee Flôres Pires