quinta-feira, dezembro 11, 2008

Poema de Amor n° 12


Para meu coração basta-me teu peito,
para tua liberdade basta, minhas asas.
De onde minha boca chegará até o céu
o que estava entorpecido sobre tua alma.
É em ti a ilusão de cada dia.
Chegas como o orvalho das corolas.
Socava o horizonte com tua ausência.
Eternamente em fuga como a onda.
Eu falei que cantavas com o vento
como os pinheiros e como os mastros.
Como eles é alta e taciturna.
e entristeces de pronto, como uma viagem.
Acolhedora como um velho caminho.
Te povoam ecos e vozes nostálgicas.
Eu despertei e às vezes migraram e fugiram
os pássaros que adormeciam em tua alma.

(Neruda - Vinte poemas de amor e uma canção desesperada)

domingo, dezembro 07, 2008

Poema de amor n° 3

Ah vastidão de pinheiros, rumor das ondas quebrando,
lento jogo das luzes, solitária cabana
crepúsculo abatendo-se em teus olhos, boneca,
caramujo terrestre, em ti a terra canta!

Em ti os rios cantam e minha alma se perde neles
como tu o desejas e fazia para donde tu o querias.
Marca-me em teu caminho meu arco de esperança
e soltarei em teu delírio meu disparo de flechas.

Em torno de mim estou vendo tua cintura de nevoa.
e teu silêncio me acusa minhas horas perseguidas,
e tu és como teus braços de pedra transparente
donde meus beijos perdem e minha úmida ânsia abriga.

Ah tua voz misteriosa que o amor tinge e dobra
no entardecer ressonante e moribundo!
Assim nas horas profundas sobre os campos tenho visto
dobrar-se as espigas em a boca do vento.


(Neruda - vinte poemas de amor e uma canção desesperada)

sábado, dezembro 06, 2008

Sobre versos

A Beatrice Jasmin

O poema sente
a falta da métrica
do milímetro
atraversado.

Sente tanto
pelo amargor
líquido dos dias,
pela triste rima dos tempos.

E a poesia por vir
roí as unhas
diante das desjardinadas rosas,
da sede desértica.

Imóvel
a mão estanca
os versos,
não ousa deslizar
sobre o papel

E o poema -
suposta dialética primaveril -
fica entre o dito
e o não dito,
entre a boca calada,
e a voz distante
desconhecida.

E eu,
preso em tuas rimas,
enredado em teus cabelos,
ato-me.
Em desacato a tua carne,
tua palavra e tua unha.


Lee Flôres Pires