quinta-feira, dezembro 24, 2009

Seguir viagem

seguir viagem, tirar os pés do chão
viver à margem, correr na contramão
a tua imagem e perfeição
segue comigo e me dá direção

se dizem que é impossível
eu digo: ! é necessário !
se dizem que estou louco
(fazendo tudo ao contrário)
eu digo que é preciso
eu preciso... é necessário

seguir viagem, tirar os pés da terra firme
e seguir... viagem

seguir viagem, tirar os pés do chão
outros ares...sete mares...voar... mergulhar
o que nos dá coragem
não é o mar nem o abismo
é a margem, o limite e sua negação

se dizem que é impossível
eu digo: !é necessário!
se dizem que é loucura
(eu provo o contrário)
e digo que é preciso
eu preciso...é necessário

seguir viagem, tirar os pés da terra firme
e seguir... viagem

(Humberto Gessinger)

terça-feira, dezembro 15, 2009

Um sonho impossível

Sonhar
Mais um sonho impossível
Lutar
Quando é fácil ceder
Vencer o inimigo invencível
Negar quando a regra é vender
Sofrer a tortura implacável
Romper a incabível prisão
Voar num limite improvável
Tocar o inacessível chão

É minha lei, é minha questão
Virar esse mundo
Cravar esse chão
Não me importa saber
Se é terrível demais
Quantas guerras terei que vencer
Por um pouco de paz

E amanhã, se esse chão que eu beijei
For meu leito e perdão
Vou saber que valeu delirar
E morrer de paixão
E assim, seja lá como for
Vai ter fim a infinita aflição
E o mundo vai ver uma flor
Brotar do impossível chão


(Chico Buarque)

domingo, dezembro 13, 2009

Instante

Quem pensa que a vida
não é curta?
Que os instantes não esbarram
em nossos corpos e nos paralizam?
A gente perde a hora
perde o prumo
esquece a razão.

E quem pensa que não temos razão?
A caminho de Rio Vermelho
no horizonte:
uma linha que divide a morte -
esquina tão tênue... sorte?

E quem pensa que a vida
não é esquina?
Um breve olhar eterno
o rubro batom no meu terno
da noite que passou.
Perdida na canção de quem amou
peito pedra parado que hesitou
nas ondas que o rádio levou.


Lee Flôres Pires

quarta-feira, dezembro 09, 2009

Os Materiais

(1974)


Eu quis a palavra reta
feito faca.

Eu fiz do verso o corte branco
do metal.

O lento sal dos anos
não lhe roube o fio.

O inimigo não possa
empunhá-lo durante a luta.

Se o carrasco, algum dia,
levar aos lábios meu poema,

o vidro claro do verso
lhe corte a boca.

E a palavra não se renda
à tortura.

E quando eu disser: pedra,
não se entenda pão.

Quando eu disser: noite,
se encontre nela todo poder de treva.

Quando eu disser: eis o inimigo,
mate-o antes do amanhacer.


(Piedro Terra)

terça-feira, dezembro 01, 2009

Poema sobre Jardim

Tem flores
tem amores
e beijo de jasmim.
E quem deita
sobre o orvalho,
não esquece os girassóis.

Estes girassóis
esta estrela matutina
que resplandece sobre mim.

Pra não morrer o jardim.
Pra ser feliz no meu jardim.
Você vem de asas coloridas
e sobrevoa em mim.

E eu espero,
desespero
faço cena,
James Jean.

Faça chuva,
faça cama,
não tem beija flor que roube
o nécta que guardo eternamente em mim.
Peito aberto para seus botões de amor.
Como desabrocha tua flor,
e invade e chega ao meu fim.


Lee Flôres Pires

quinta-feira, agosto 13, 2009

Coração carnaval

Teu amor inexato
sem cálculo,
sem bússola,
sem metro,
me detona
feito bomba

...
ataque aereo mortal
...

Meu coração faz carnaval!
Minha boca confusa anormal
entre dentes e feridos.

Meu coração carnaval
o seu samba de raiz
no meu gingado -
carnaval dos sentidos.

Bomba H -
semi-liquido.


Lee Flôres Pires

terça-feira, julho 07, 2009

Rosas, guerras e meninos.

a Samuel Neves

Agora é a vez
do menino falar o instante:
- enquanto a gente passa
no meio da tarde
pelas veias cinzas abertas,
tiros nos atingem.
Somos refugiados.
Bombas explodem, tanques invadem...
nossas vozes pouco ecoam.

Agora é a vez do menino falar -
vozes, ardentes vozes:
- querida,
não quero que me entenda
só queria dizer
que não me importo.
Eu quero ficar em casa
ou em algum bar colorido
de certeza, protegido
não importa se cercado
de flores funéreas
do sepulcro do meus amores.

Muros cercam nossa terra -
somos homens ilhados -
em nossos pescoços,
condominios e
arames farpados.

Ao menino que fala
resta a pedrada,
o som que vem dos mares,
dos campos e das pedreiras.
Trazendo noticias de dias e noites quentes...
e esse calor
se expandindo nos chãos
das fábricas e do jardim.

E no jardim:
rosas de todas as cores.
Uma fazendo-se notar.
Uma distante.
Uma esperança.
Uma Rosa separada.

Lee Flôres Pires

quarta-feira, maio 20, 2009

C'est la vie

Uma vida de partida
um coração partido
um espelho
um retrovisor
um adeus.

Uma morte por mês
o último olhar mais uma vez...
mais um peito que sangra sem dor.

Um jeito mais inteligente de pedir as contas
sumir... morrer de vez em quando.

Curtir o fim do túnel,
a luz que espera o amanhã.


Lee Flôres Pires

quinta-feira, maio 14, 2009

Coisa tua

assim que vi você
logo vi que ia dar coisa
coisa feita pra durar,
batendo duro no peito
até eu acabar virando
alguma coisa
parecida com você
parecia ter saído
de alguma lembrança antiga
que eu nunca tinha vivido,
mas ia viver um dia
alguma coisa perdida
que eu nunca tinha tido
alguma voz amiga
esquecida no meu ouvido
agora não tem mais jeito,
carrego você no peito
poema na camiseta
com a tua assinatura
já nem sei se é você mesmo
ou se sou eu que virei alguma coisa
tua.


(Alice Ruiz)

quarta-feira, abril 29, 2009

Amar

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o cru,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave
de rapina. Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.


(Carlos Drummond de Andrade)

quinta-feira, abril 16, 2009

Navio ao vento (vinho, cais e flor)

a Alice Ruiz


Sai...
deixando ondas
e fumaça no céu da baía.
E meu coração
sinestesiado de lembranças
pulsa a cada novo porto
a cada nova promessa de redenção.

... e a quem fica no cais
desculpe-me pelas letras que descem
pela mão que acena
pelo fim da sessão.
Desculpe-me por meu leme à deriva
minha rota de colisão.
Desculpe-me por ser flor
de pétalas ao vento
num filme sem cor.
Desculpe-me por ser vinho seco
de uvas vermelhas
que escorrem pela boca
sem sabor.

Desculpe-me.

Desculpe-me por aquele beijo
corpo, alma e mente
que esqueci completamente.
É que esta vida
de tela de cinema,
vinho, cais e flor,
navio ao vento,
moda retrô,
nos deixa assim...
desumanos.


Lee Flôres Pires

quarta-feira, abril 08, 2009

Integrações

Depois de tudo te amarei
Como se fosse sempre antes
Como se de tanto esperar
Sem que te visses nem chegasses
Estivesses eternamente
Respirando perto de mim.

Perto de mim com teus hábitos,
Teu colorido e tua guitarra
Como estão juntos os países
Nas lições escolares
E duas comarcas se confundem
E há um rio perto de um rio
e crescem juntos dois vulcões.

Perto de ti é perto de mim
E longe de tudo é tua ausência
E é cor de argila a lua
Na noite do terremoto
Quando no terror da terra
juntam-se todas as raízes
e ouve-se soar o silêncio
com a música do espanto.
O medo é também um caminho.
E entre suas pedras pavorosas
Pode marchar com quatro pés
E quatro lábios, a ternura.

Porque sem sair do presente
Que é um anel delicado
Tocamos a areia de ontem
E no mar ensina o amor
Um arrebatamento repetido.


(Pablo Neruda - Coração Amarelo)

quinta-feira, abril 02, 2009

O transe e a transa

Rende-se na cama
e ama
a lua crescente
a boca e a serpente.

Clama
a lua
e a dança
o transe e a transa...
passado, futuro,
presente:

- Vem! Me bebe!
Sede afogada.
Na beira da manhã
(cortina fechada)
mora o gozo
da bruxa
de loucas entranhas.


Lee Flôres Pires

segunda-feira, março 09, 2009

A cor do Jambo

Doce espectro
minha demora
saliva forte
a boca mora
beijo,
amora,
o gosto do Jambo.

Doce ausência
minha demora
a cama larga
me apavora
travesseiro,
lençol,
o aroma do Jambo.

Doce reflexo
minha demora
espelho invertido
impregna a memória
janela,
ônibus...
a cor do Jambo.

Estrada...
vermelho
azul
escuridão.
Chapada
fumaça
solidão.

Segundos,
minutos,
horas,
ao dia: abreviação.
Curto espaço de tempo
teletransporte
retroprojeção.

Espectro
ausência
reflexo
amargo coração.


Lee Flôres Pires

sábado, janeiro 24, 2009

Para se dizer ao pé do ouvido (ou canção da infelicidade)

Vontades...
ruídos,
língua,
canção.
Infelicidade sussurada
me fazendo mistura -
voz e ouvido.

Amo o vento
que desmancha o prazer da noite.
Amo o cheiro envelhecido do dia,
minha barba no seu rosto fazendo poesia,
como o sol descobrindo
o que seu jeito de olhar não queria -
detalhes que a sombra escondia.

Vontades...
ruídos,
dentes,
refrão.
Dentro de mim
a mordida infeliz de desejo,
o amor distraído do beijo,
pedindo tango.
(se é tango que queres
dancemos então).


Lee Flôres Pires

quarta-feira, janeiro 14, 2009

A faca que fura

a Babaloo

Teus versos
me cortam o céu da boca.
Letra por letra
dilacerando minha carne.

Ao ressoar dos seus lábios
ditongos, tritongos e hiatos
me cortam
feito lâmina cega
cortando o vento -
redemoinho de semivogais.

Teus versos
faca de nenhum gume,
nunca flores
nunca estrume.
Sempre sangue,
sedução...

A faca que fura meu coração!

E teu verso divã/neio
meio pronome oblíquo,
me cura com interrogação.


Lee Flôres Pires