quarta-feira, abril 29, 2009

Amar

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o cru,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave
de rapina. Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.


(Carlos Drummond de Andrade)

quinta-feira, abril 16, 2009

Navio ao vento (vinho, cais e flor)

a Alice Ruiz


Sai...
deixando ondas
e fumaça no céu da baía.
E meu coração
sinestesiado de lembranças
pulsa a cada novo porto
a cada nova promessa de redenção.

... e a quem fica no cais
desculpe-me pelas letras que descem
pela mão que acena
pelo fim da sessão.
Desculpe-me por meu leme à deriva
minha rota de colisão.
Desculpe-me por ser flor
de pétalas ao vento
num filme sem cor.
Desculpe-me por ser vinho seco
de uvas vermelhas
que escorrem pela boca
sem sabor.

Desculpe-me.

Desculpe-me por aquele beijo
corpo, alma e mente
que esqueci completamente.
É que esta vida
de tela de cinema,
vinho, cais e flor,
navio ao vento,
moda retrô,
nos deixa assim...
desumanos.


Lee Flôres Pires

quarta-feira, abril 08, 2009

Integrações

Depois de tudo te amarei
Como se fosse sempre antes
Como se de tanto esperar
Sem que te visses nem chegasses
Estivesses eternamente
Respirando perto de mim.

Perto de mim com teus hábitos,
Teu colorido e tua guitarra
Como estão juntos os países
Nas lições escolares
E duas comarcas se confundem
E há um rio perto de um rio
e crescem juntos dois vulcões.

Perto de ti é perto de mim
E longe de tudo é tua ausência
E é cor de argila a lua
Na noite do terremoto
Quando no terror da terra
juntam-se todas as raízes
e ouve-se soar o silêncio
com a música do espanto.
O medo é também um caminho.
E entre suas pedras pavorosas
Pode marchar com quatro pés
E quatro lábios, a ternura.

Porque sem sair do presente
Que é um anel delicado
Tocamos a areia de ontem
E no mar ensina o amor
Um arrebatamento repetido.


(Pablo Neruda - Coração Amarelo)

quinta-feira, abril 02, 2009

O transe e a transa

Rende-se na cama
e ama
a lua crescente
a boca e a serpente.

Clama
a lua
e a dança
o transe e a transa...
passado, futuro,
presente:

- Vem! Me bebe!
Sede afogada.
Na beira da manhã
(cortina fechada)
mora o gozo
da bruxa
de loucas entranhas.


Lee Flôres Pires