sexta-feira, dezembro 10, 2010

Estatísticas

Nossas mulheres, em média,
São presas do vício
De encenar a farsa
Que hora tudo está
Na mais santa ordem
Lá dentro do seu homem,
Lá dentro dos seus filhos,
Lá dentro dos seus lares
Tem pilares sólidos.
Nossas mulheres, em média,
Cultivam heranças
De mãe pra filha
Desde mil-quatrocentões
São prendas secretas,
Receitas completas,
Mandingas e remédios
De como remendar
Seu mundo a preços módicos.
No fim da novela
Há um beijo que o marido negou
Há um "happy end"que o vento levou
Um rapto, uma aventura de amor
E a esperança, furta-cor
De um lapso na realidade nua e crua,
Por favor!
Nossas mulheres, em média,
Duvidam do espelho
Ao constatarem a inevitável impressão
Do chumbo da idade,
Das velhas vontades,
Sobre as sobrancelhas
Por mais que a maquilagem
Cubra os anos óbvios.
Nossas mulheres, em média,
Encaram a vida
Com muito mais sabedoria e altivez
Que os homens sisudos,
Heróis derrotados,
Guerreiros cansados
Que à noite querem janta pronta
E assuntos sérios.

(Guilherme Arantes)

Antes da chuva chegar

Sinto agora que o vento
traz coisas de longe de casa libertando a voz
são lugares perdidos, imagens confusas de tempos
que não voltam mais
e pessoas com quem conviví, suas palavras, seus sonhos,
seus atos, seus modos de ver a vida
olhe o que o vento traz, antes da chuva chegar

Pela rua deserta e forrada
de folhas caídas que voam ao léu
corre o meu pensamento
no rastro das nuvens pesadas que habitam o céu

Vejo a casa na qual me criei,
vejo a escola, o jardim,
vejo a cara de cada um dos meus companheiros.
olhe o que o vento traz, antes da chuva chegar
olhe o que o vento traz, antes da chuva chegar

(Guilherme Arantes)

sexta-feira, outubro 29, 2010

Feitiço

A poesia diz
teu nome -
atraversado
feitiço
de primavera.

Ela se revela
no beijo
na pele
no corte
no acorde de Hendrix.

Sem arrependimentos
ausência -
sêmen
anti-tergiversação.

Ela minha
tende
a dedicar.


Lee Flôres Pires

sábado, outubro 23, 2010

do coração

Dedico
exposto
mãos a mostra
provoca
a outrem
sem cores.

Oferto
o meu
o teu
selo
caminho
solitário -
poema que
te fiz.

Verso
por verso,
prole
por prole,
boca por
boca...

Abdico
o beijo
que não seja
corte

sangue
de quem
ama
em evidência
o remetente
alcançado.


Lee Flôres Pires

sexta-feira, outubro 15, 2010

Maldizendo

Não se encruzilhe.
Poesia é mandinga braba.

Se a caldeira
desavisada
ferve.
Não vá misturando
pitada de verbo
línguas de metáforas
gosto sinestésico
de luar...

Não arrisque
alquimia de significados,
ricos sabores neológicos,
pois o molho
unguento
cozinha...
será inocente o que virá?

Não se iluda
com a magia
das assonâncias,
a ousadia
nos ouvidos
das moças.

Poesia não é coisa
do céu.
É obra do cão.
Macumba,
urucubaca...
não solta mais
a sangria intermitente.
A prosa tinhosa.

Pensa que impunemente
pode ir criando cântico
que alcança o âmago
e faz do olho uma nascente?

Prepare bem o ébo
de peito aberto
e corpo fechado.
Poesia é négocio feito
com sangue e alma.
E o Coisa-ruim
cobra em espécie,
líquido e corrente.

Não invoque o mundo
esta suposta
encruzilhada
de olhos maleguetos.
Esta sensação de incômodo.

Depois não haverá remédio,
exorcismo, quebranto
que arranque
o nódulo do peito -
essa paixão no estômago.



Yara Fernandes e Lee Flôres

quarta-feira, outubro 06, 2010

Rua sem cor

Dias de inverno passam tão lentos
e eu te espero ouvindo o vento,
tardes vazias voam no tempo,
pensamento em despedida.

Fostes tão longe
teu rosto não me pertence.

Quando eu disse adeus
pra sempre eu errei.

Se eu olhar pra trás
teus passos não vem.

Sua casa onde achava
sombras dos teus destinos,
rua sem cor, jardim sem flor,
mas sentimentos vivos
por você.

(Pública)

quarta-feira, setembro 29, 2010

Ouvidos tensos

Por ser pouco
teu amor
não dizia nada,
em meus
ouvidos tensos.
E era de se esperar,
que a espera
fosse
falta de sorte.

Sua boca
calada -
um silêncio
infinito
de rasgar
a pele.
Mede
esta delicada
forma
de morte.

Já não basta!
A palavra
escrita
não compensa
a antiga
voz distante
ao telefone.
O eco
das fotos
pela sala.
A lembrança
do adeus
silenciado
cortado
ao pé
da carne.


Lee Flôres Pires

sexta-feira, setembro 24, 2010

Ruga

a Yara Fernandes

Os dias
o tempo
o corpo
fará mudar
a flor rubra -
inesperada ruga
que nasce
em silêncio
nas costas
do sol.

As cicratizes
e o café,
usina
dos meu passos,
elimina
o cansaço,
o sono
engolido
aos poucos.

E a terra tonta
encontra
o eixo,
equilibra o
peão a rodar.

O trem já passou
e a terra não
deixou de girar.

Sempre tão igual...

mas amanhece
lentamente
a flor,
o feijão
que brota
o novo dia.

Lee Flôres Pires

sábado, agosto 21, 2010

Ritmo de banzo

a Yara Fernandes


Sem poesia
o corpo dança
desnutrido
um banzo silencioso.

(... quem dera fosse o silêncio
a sátira do ritmo!)

Sem prosa
o corpo ainda dança
insiste
triste
entrar
no verso,
sáliva
e sorriso -
síntese
de dentes
e aliteração.

Sem palavras
o corpo
despido de sons
retém a sílaba
cancela o beijo
no copo -
solilóquio
deleite
e dilúvio
no penúltimo
poema.


Lee Flôres Pires

segunda-feira, agosto 16, 2010

Jazz

Teu toque
é tão grave...

É nota improvisada
que me dedilha
trepidando cordas
bambeando pernas.

Um swing segue pelo sangue.
E eu solo.

Se teu jazz me toca,
eu deixo de ser blue.


Yara Fernandes


Uma homenagem a uma grande companheira.
Um poema que me tocou muito.

sábado, julho 24, 2010

De cara lavada

hoje me desfiz dos meus bens
vendi o sofá cujo tecido desenhei
e a mesa de jantar onde fizemos planos

o quadro que fica atrás do bar
rifei junto com algumas quinquilharias
da época em que nos juntamos

a tevê e o aparelho de som
foram adquiridos pela vizinha
testemunha do quanto erramos

a cama doei para um asilo
sem olhar pra trás e lembrar
do que ali inventamos

aquele cinzeiro de cobre
foi de brinde com os cristais
e as plantas que não regamos

coube tudo num caminhão de mudança
até a dor que não soubemos curar
mas que um dia vamos


(Martha Medeiros)

Bilhete

Se tu me amas, ama-me baixinho
Não o grites de cima dos telhados
Deixa em paz os passarinhos
Deixa em paz a mim!
Se me queres,
enfim,
tem de ser bem devagarinho, Amada,
que a vida é breve, e o amor mais breve ainda...


(Mário Quintana)

segunda-feira, julho 19, 2010

Rosa lágrima

Se os meus pés ficam
finco a clave lágrima
no meu cancer.
Se a boca
beija o veto
ei de dormir.

O poço que é fundo
rimou o vento -
barco a vela,
peito já não rima,
nem esquina
de flertar.

Cabelo doce
reflexo dela
preso no meu olhar.

E o alcóol
era forte
era música
em nota fora
do tom.
Era passível
se não fosse morte
corte pulso-poema
vontade de
deitar.

Amarelo lógico
verde dúvida.
Rosa solução.

A madrugada
gira
sem norte:
verso
cama
drama
leito
desfeito
sem sal.
Deleito
o leite
suco
de anseio -
cereal
sem açucar;
ressaca
normal.

... eis que acordou o poema!
O que lhe dar de manhã?
- mau humor e café amargo.


Lee Flôres Pires

terça-feira, julho 06, 2010

Coração fragmentado

As coisas não ditas
afogam-se neste
copo de vinho -
aquela sacada
escura.

As varandas
acesas
se resumem
à aquele cigarro
arrependido
no cinzeiro.

As noites não dormidas
cobram a conta
da tarde
do verso que o lápis
não escreveu.

Dói
o se...
dúvida.

o que transborda cabe no meu
peito -
palavras
escritas
no continente dos beijos
de ontem.
Passou,
a onda levou
balanço
fluido
de beleza.

Coração fragmentado.
Adeus.


Lee Flôres Pires

segunda-feira, junho 28, 2010

Palavra nenhuma

Neguei a voz
neguei o olhar
cabisbaixo
refletia no chão
pisado por ela
ao sair.

E meu coração
não era capaz
de palavra nenhuma
nenhuma lágrima
nenhuma mão
para apertar o peito.

Fitava
o caminho dos seus passos
inerte
sem amor.


Lee Flôres Pires

Maré

Amou-se o passo
descompasso
caído sobre os braços
da falta de ritmo.

E a voz que se faz dissonante
ressoa como cabelo
na boca dela -
sorriso último,
antes de transpirar.

Saudade era por pouco
morta dentro do peito
repartindo o amor

Solto o toque na esquina
moça bonita que quer se afogar
sacada em frente a solidão
e mar -
ressaca das ondas
soando bem aos ouvidos.

Sem ela
que a maré levou.


Lee Flôres Pires

sexta-feira, junho 18, 2010

Separação

Desmontar a casa
e o amor. Despregar
os sentimentos das paredes e lençois.
Recolher as cortinas
após a tempestade
de conversas.
O amor não resistiu
às balas, pragas, flores
e corpos de intermeio.

Empilhar livros, quadros,
discos e remorsos.
Esperar o infernal
juizo final do desamor.

Vizinhos se assustam de manhã
ante os destroços junto à porta:
- pareciam se amar tanto!

Houve um tempo:
uma casa de campo,
fotos em veneza,
um tempo em que sorridente
o amor aglutinava jantares.

Amou-se um certo modo de despir-se
de pentear-se.
Amou-se um sorriso um certo
modo de botar a mesa. Amou-se
um certo modo de amar.

No entanto, o amor bate me retirada
com suas roupas amassadas, tropas de insultos
malas desesperadas, soluços embargados?

Faltou amor no amor?
Gastou-se o amor no amor?
Fartou-se o amor?

No quarto dos filhos
outra derrota à vista:
bonecos e brinquedos pendem
numa colagem de afetos natirmortos.

O amor ruiu e tem pressa de ir embora
envergonhado.

Erguerá outra casa, o amor?
Escolherá objetos, morará na praia?
Viajará na neve e na neblina?

Tonto, perplexo, sem rumo
um corpo sai porta afora
com pedaços de passado na cabeça
e um impreciso futuro.
No peito o coração pesa
mais que uma mala de chumbo.


Affonso Romano de Sant'Anna

sexta-feira, junho 11, 2010

Ele por ele

O corpo fica apático
quando o Amor não ama mais.
Vertigem letárgica,
cacos de pensamentos,
lembranças despedaçadas.
Não sobrou versos,
nem rascunhos de sentimentos,
quando o amor não ama mais.

Pegou o ônibus,
mudou de cidade,
mudou de casa
e de toque
e o corte da carne,
quando o amor não amou mais.


Lee Flôres Pires

terça-feira, maio 25, 2010

Aço II

E quem ainda suporta o mundo?
Não há mais drummonds
apenas vão mulheres vãs -
transeuntes entrelaçando pernas
com homens rudes
e seus sorrisos amarelos.

E quem ainda suporta o mundo?
Não há mais esperança
morremos de medo
das mãos ingênuas das crianças -
velhas lembranças
de felicidade.

E quem ainda...?
Não desiste no meio,
sem ao menos começar?
Sem guerrear o aço?
Pedaço em pedaço
tentar sobreviver
sem amar.

E se sobrevivo
é porque sou poeta
sobre o crime
de recordar o primeiro verso
escrito,
por um réu confesso,
no seu olhar.

Lee Flôres Pires

segunda-feira, maio 24, 2010

Aço

O cansaço é o próprio aço
sonho castrado no braço
sem cores
o trabalho -
alienação.

Mente
relógio zerado
falta de espaço
acabou o tempo de descaso
alertou a insurreição.

Lee Flôres Pires

terça-feira, maio 18, 2010

Sem adjetivos

a Lee Flôres

O verso
era fome, era sede.
E a fome era tanta!

A boca da moça
era rima, era corte, era fruta.
Era mais.

O sonho era corpo demais,
tão cheiro, tão cor.
E que gosto!

Nas portas dos olhos,
nas brechas do peito,
tudo era tão muito.

Que menina,
passeando
pelas palavras
pintava, coloria
adjetivíssima.


Yara Fernandes 08-05-2008

segunda-feira, maio 17, 2010

O amor esteve aqui

O amor esteve aqui
ninguém viu ele entrar
passou o tempo que quis
saiu sem avisar.

O amor esteve aqui
entrou sem permissão
levou o que bem quis
fugiu como um ladrão.

O amor esteve aqui
disse "não vou demorar"
olhou pro lado, fez hora
e partiu pra não voltar.

O amor esteve aqui
disse "vim para ficar"
"dessa vez é para sempre"
e escapou tão devagar.

O amor esteve aqui
bateu na porta, insistiu
pensou "não tem ninguém"
foi embora, desistiu.

Leo Trindade

segunda-feira, maio 10, 2010

Cálice no sim

Do rubro cálice de vinho,
da boca que bebe o éter,
pálidos por um instante
os lábios de batom.

Ela tão alcóol forte
tão aberto o peito
prestes a se sabotar.

Esquecer que não há mortes
que não há fim
depois da noite.

E essa noite
tão forte quanto o peito
pedra que dói no sim.

Ela menina sutil
com os dentes chamando voz:
olhos consentidos
estampados em nanquim.

Ela...
vida breve
Insight de jasmin.

A paixão não é soluço
nem lágrima fogo -
copo, gelo e gim.

Boca, ela... perto.
Terra, água (...)
que aterra em mim.


Lee Flôres Pires

quinta-feira, abril 29, 2010

Meu mundo e nada mais

Quando eu fui ferido
Vi tudo mudar
Das verdades
Que eu sabia...

Só sobraram restos
Que eu não esqueci
Toda aquela paz
Que eu tinha...

Eu que tinha tudo
Hoje estou mudo
Estou mudado
À meia-noite, à meia luz
Pensando!
Daria tudo, por um modo
De esquecer...

Eu queria tanto
Estar no escuro do meu quarto
À meia-noite, à meia luz
Sonhando!
Daria tudo, por meu mundo
E nada mais...

Não estou bem certo
Que ainda vou sorrir
Sem um travo de amargura...

Como ser mais livre
Como ser capaz
De enxergar um novo dia...

Eu que tinha tudo
Hoje estou mudo
Estou mudado
À meia-noite, à meia luz
Pensando!
Daria tudo, por um modo
De esquecer...

Eu queria tanto
Estar no escuro do meu quarto
À meia-noite, à meia luz
Sonhando!
Daria tudo, por
meu mundo
E nada mais...


Guilherme Arantes

segunda-feira, abril 12, 2010

sexta-feira, abril 09, 2010

E ama o amor (ou desespero de não ser)

Se não digo amor
meus lábios
se entregam em febre.
minhas pernas
meus pedidos
somem
suplicam.

Ah!... quando eu digo amor!
grito parágrafos infinitos,
meu rosto assume nova cor,
em detalhes de texturas
incandescentes
e o medo
estremece.

Morte
alma
reticências
desespero de não ser
amor o amor.

Mas se não digo amor?
E ama o amor
a fogo
e em palavras
não atende o amor?

Por isso,
o vento me carrega
por entreportas da dor
e sempre digo amor.


Lee Flôres pires

segunda-feira, abril 05, 2010

Tempo de clarim

a Laís Romero

Nem o sumiço das horas
pelo resto do dia
me fez esquecer
o tempo -
o silêncio
das flores
no jardim.

Nem a neblina nos olhos
das moças,
prostitutas febris,
me fez desistir
das horas -
quarto, cama
pele...
clarim.

Nada pode me matar
vestido de blusa
amarela,
coberto de sorrisos.
manhã de rima
e artifícios.


Lee Flôres Pires

quinta-feira, março 25, 2010

Ela por ela (ou carta de adeus)

Não vou esperar
O tempo passar
E as pessoas passarem na minha frente
Como se a vida fosse uma vitrine
E eu uma espectadora imóvel na janela.

Por mais que as dores
sejam noturnas,
diurnas.
As entrego ao tempo.
E com ele, o tempo,
Elas desistam de me acompanhar
Na noite escura
No dia insone.

Noite e dia cansei de deixar claro
Que fui feliz por fora da janela.
Que foi divertido está do seu lado
E responder perguntas sinceras.

Só queria que pegasse em minha mão,
Mas se os lugares,
As pessoas e a nossa música que toca
Nos trazem meses de incertezas,
Frieza no olhar de colagem
Mãos vazias e soltas
ao chegar no bar
cegueira no quarto e sala
sem pôr a cama ao chorar.

Preciso de coragem
de pegar o que caiu no chão,
de convencer com o jornal
que lia na fila do pão.

Mas se a apatia
Já se fez lar
na reciprocidade
das ações.

O paraíso infantil das palavras
Será mais confortável,
Nem beijo,
Nem cartas,
Nem cheiros,
Nem declarações.

Nada que possa te perseguir.

Nem sorrisos,
Nem gemidos,
Nem cuidado
E companhia.

Nada que possa insistir no erro
Na dor.

Nem ironias
E discordâncias.
A poesia acabou.
Desistiu de mim,
Desistiu de você,
De nós.

Vou indo nessa
Te desejo felicidade.
E não serei feliz
o tempo todo,
mas o tempo todo
serei feliz com quem
quer ser feliz comigo.

Se cuida.


Obs.: paráfrase epigrafe: “todo amor é impossível, até que se torne inevitável.”


Lee Flôres Pires

Ela

Ela.
Parou.
Falou.
Com a boca dela
Arrotando versão.
Delírios
E cabelos belos.

Tão desumano amar
Daquele jeito
Com o aberto peito
Sem sentir o mar.

Só tristeza.
Ao sabor do bar
Vento, vela,
Violinos,
Imaginação.

E cabe amor na boca dela?
Sonhos amarelos?

Não.
Só guitarras
Sem refrão que diz:

- Ame ou deixe
Meu coração.


Lee Flôres Pires

Senhor dos Sábados

Uma noite
noites
noites em claro
noites em claro não matam ninguém
mas é claro, perdi a razão
gritei seu nome por toda a parte
do edifício em vão
quebrei vidraças da casa
estilhaços de vidro espatifados no chão
risquei paredes do apartamento
com frases roucas de paixão
ah que noche mas nochera
ah que noche mas ...
Dentro da escuridão do quarto
rasguei no dente seu retrato
minha alma ardia meu bem...
Volte cedo
antes que acenda a luz do
meu desejo num beijo
bem bom
meu bem volte cedo meu bem volte bem cedo


Waly Salomão

terça-feira, março 23, 2010

Lembrete

Adentro teus pés
percorro veias,
calcanhar,
dedos,
nó(s).

Lacinho lembrete
de que estou vivo.
Eu sinto minha mão,
cabeça, tronco
e membros
de novo no chão.

Adentro teus pés
percorro teus passos,
caminho:
pegadas
de mágoas
a pulsar
o passado no chão.

medo de lembrar
que estais viva.
Boca
saliva
entranhas
visceras
coração.

e o ar puro
invade
o pulmão,
avisando vida -
Renovação.


Lee Flôres Pires

quinta-feira, março 18, 2010

Sobre teus pés de Portinari

Eu gosto dos teus pés,
que levam o teu sorriso às pessoas.
Lembram o trabalho daqueles rizicultores de Yunnan, na China,
que metem, na lama, as mudinhas do que será
sangue nos ossos e nuvem nos céus das bocas.

Eu gosto dos teus pés:
mantêm distância apropriada
entre o futuro do mundo
(que incubas num ninho logo acima do teu nariz)
e o passo concreto que dás.
O sonho ganha tempo
para percorrer teu corpo até
alcançar a forma necessária de um próximo passo.

Acho bonitos, os teus pés.
São fortes e bem-humorados.
Queriam ser pés de soldado e palhaço.
Depois viram que não era bem isso.
E, então, descobriram que podiam ser,
se for preciso, até a velhice,
pés de criança descalça.


João Pedro de Sá

terça-feira, março 02, 2010

Dedicatória

Escrevo estes versos
que comovem letras,
deslocam métricas,
relevos,
com suas mãos.

Palavras
cordilheiras
luvas
que adentro
com meu pulso
e coração.

Provocando
dialética
sintese
eletrons
neutrons
fusão.

Não há no que dedico
decantação
entre o semen
e o óvulo,
no menstruo
que determina
o não.


Lee Flôres Pires

sábado, fevereiro 20, 2010

A poesia morreu na esquina

A poesia morreu
sambando na esquina perigosa da dor.
Morreu de bala perdida,
de cara pintada, confete e serpentina.

Morreu de escola de samba -
Caveirão desfilando na avenida sem cor.
Não eram Pierrô e Colombina,
Era o carnaval que abriu alas e fuzilou.

Não, o poema não pode viver em Ipanema.
Não, sangue não estancou no Leblon.
Não há poesia em Copacabana,
nem purpurina que faz brilhar o verso incolor.

Não há vida, nem pincel de alegria para a alma que me persegue,
e descreve o crime e o horror.

Não dá pra esconder o corpo putrefato
numa vala podre como a Baia.

(e é linda a Guanabara sem som e odor)

Miséria e fedor atravessando tuneis, viadutos, marquises
num cortejo triste de Gentileza e tinta fresca.

Este cortejo um dia há de transbordar o Rio Invisível,
e incendiar a poesia aqui velada.


Lee Flôres Pires

quinta-feira, fevereiro 04, 2010

Doublé de corpo

Eu não reconheço mais
Olhando as fotos do passado
O habitante do meu corpo
Esse estranho doublé de retratos

Talvez até eu já vivesse
Em algum corpo emprestado
Esperando só por você
Pra reunir meus pedaços

Foi tanta força que eu fiz por nada
Pra tanta gente eu me dei de graça
Só pra você eu me poupei

Será que o tempo sempre disfarça
Tomara um dia isso tudo passa
Desculpa as mágoas que eu deixei

Eu já dei a outra alma
Aos bruxos e vampiros
Eu quero que eles façam a festa
Enquanto eu me retiro

Só você sentiu por mim
O que nem eu sentiria
Você foi o meu escudo
E eu a própria covardia

Foi tanta força que eu fiz por nada
Pra tanta gente eu me dei de graça
Só pra você eu me poupei

Será que o tempo sempre disfarça
Tomara um dia isso tudo passa
Desculpa as mágoas que eu deixei


Se você ainda acreditar
Eu prometo dublar seu corpo
Te proteger, te poupar das dores,
Te devolver o amor em dobro
Não se ama, amor, em vão


(Leoni)

segunda-feira, janeiro 25, 2010

Ao corpo descabido de vida

a Pedro Tierra

Esgotou-se o tempo de consentir:
o corpo descabido
de vida
enfim acorda.
Raizes secas
no canto da boca
emergem os rios da vida
descortinando
novos campos de batalha.

Esgotou-se o tempo de semear
e anunciou-se a hora do martelo.
Mãos talhadas em silêncio
e ternura,
Convocam enxadas,
foices, forcados, facões,
que retinham a palavra
quando o gesto era possível
e agora explodem verborrágicos
tambores de alvorada.

O corpo descabido de vida
que reduzia a geografia dos homens
ao exato limite da pele,
hoje conclama utopias
com a ferocidade
de quem destrói muros de idéias
e armas pesadas.

O corpo descabido de vida
enfim abre os olhos e vê
o céu de primavera.
Deixando pra trás
manhã, tarde... morte -
a marcha funébre
dos que se venderam
por tão pouco.

Deixando pra trás
os que perderam a esperança,
os que trairam a tempestade,
os que retiraram do sangue
o ódio aos opressores.

A pedagogia dos aços
golpeia este corpo
putrefato -
essa atroz geografia
que não vale um sonho
que não vale vida,
que não vale nada.

A vida vale tão pouco do lado de fora dos sonhos ...
para os que ficam em cima dos muros.
Para os que pedem licença.

Mas para este corpo
agora descabido de morte,
que ergue a haste como arma
recitando vida
na faca do verso que fura a boca
da luta de classes.
O sangue amanhecendo
a noite como semente
é o único mundo de liberdade.

Lee Flôres Pires

segunda-feira, janeiro 18, 2010

Raíz de maio

A Raíza Rocha


Raíz de maio.
Almodóvar
e Oliva
23 cordilheras
de calos,
pedras
e Frida.

Poema
sobre a pele:
profundo
radical do
toque -
tema.

Poema -
leque
que esconde
entre versos
olhares,
signo
e Raíz de Flor.


Lee Flôres Pires