segunda-feira, janeiro 25, 2010

Ao corpo descabido de vida

a Pedro Tierra

Esgotou-se o tempo de consentir:
o corpo descabido
de vida
enfim acorda.
Raizes secas
no canto da boca
emergem os rios da vida
descortinando
novos campos de batalha.

Esgotou-se o tempo de semear
e anunciou-se a hora do martelo.
Mãos talhadas em silêncio
e ternura,
Convocam enxadas,
foices, forcados, facões,
que retinham a palavra
quando o gesto era possível
e agora explodem verborrágicos
tambores de alvorada.

O corpo descabido de vida
que reduzia a geografia dos homens
ao exato limite da pele,
hoje conclama utopias
com a ferocidade
de quem destrói muros de idéias
e armas pesadas.

O corpo descabido de vida
enfim abre os olhos e vê
o céu de primavera.
Deixando pra trás
manhã, tarde... morte -
a marcha funébre
dos que se venderam
por tão pouco.

Deixando pra trás
os que perderam a esperança,
os que trairam a tempestade,
os que retiraram do sangue
o ódio aos opressores.

A pedagogia dos aços
golpeia este corpo
putrefato -
essa atroz geografia
que não vale um sonho
que não vale vida,
que não vale nada.

A vida vale tão pouco do lado de fora dos sonhos ...
para os que ficam em cima dos muros.
Para os que pedem licença.

Mas para este corpo
agora descabido de morte,
que ergue a haste como arma
recitando vida
na faca do verso que fura a boca
da luta de classes.
O sangue amanhecendo
a noite como semente
é o único mundo de liberdade.

Lee Flôres Pires

Um comentário:

florenata disse...

gostei, lee!