sábado, fevereiro 20, 2010

A poesia morreu na esquina

A poesia morreu
sambando na esquina perigosa da dor.
Morreu de bala perdida,
de cara pintada, confete e serpentina.

Morreu de escola de samba -
Caveirão desfilando na avenida sem cor.
Não eram Pierrô e Colombina,
Era o carnaval que abriu alas e fuzilou.

Não, o poema não pode viver em Ipanema.
Não, sangue não estancou no Leblon.
Não há poesia em Copacabana,
nem purpurina que faz brilhar o verso incolor.

Não há vida, nem pincel de alegria para a alma que me persegue,
e descreve o crime e o horror.

Não dá pra esconder o corpo putrefato
numa vala podre como a Baia.

(e é linda a Guanabara sem som e odor)

Miséria e fedor atravessando tuneis, viadutos, marquises
num cortejo triste de Gentileza e tinta fresca.

Este cortejo um dia há de transbordar o Rio Invisível,
e incendiar a poesia aqui velada.


Lee Flôres Pires

quinta-feira, fevereiro 04, 2010

Doublé de corpo

Eu não reconheço mais
Olhando as fotos do passado
O habitante do meu corpo
Esse estranho doublé de retratos

Talvez até eu já vivesse
Em algum corpo emprestado
Esperando só por você
Pra reunir meus pedaços

Foi tanta força que eu fiz por nada
Pra tanta gente eu me dei de graça
Só pra você eu me poupei

Será que o tempo sempre disfarça
Tomara um dia isso tudo passa
Desculpa as mágoas que eu deixei

Eu já dei a outra alma
Aos bruxos e vampiros
Eu quero que eles façam a festa
Enquanto eu me retiro

Só você sentiu por mim
O que nem eu sentiria
Você foi o meu escudo
E eu a própria covardia

Foi tanta força que eu fiz por nada
Pra tanta gente eu me dei de graça
Só pra você eu me poupei

Será que o tempo sempre disfarça
Tomara um dia isso tudo passa
Desculpa as mágoas que eu deixei


Se você ainda acreditar
Eu prometo dublar seu corpo
Te proteger, te poupar das dores,
Te devolver o amor em dobro
Não se ama, amor, em vão


(Leoni)