segunda-feira, junho 28, 2010

Palavra nenhuma

Neguei a voz
neguei o olhar
cabisbaixo
refletia no chão
pisado por ela
ao sair.

E meu coração
não era capaz
de palavra nenhuma
nenhuma lágrima
nenhuma mão
para apertar o peito.

Fitava
o caminho dos seus passos
inerte
sem amor.


Lee Flôres Pires

Maré

Amou-se o passo
descompasso
caído sobre os braços
da falta de ritmo.

E a voz que se faz dissonante
ressoa como cabelo
na boca dela -
sorriso último,
antes de transpirar.

Saudade era por pouco
morta dentro do peito
repartindo o amor

Solto o toque na esquina
moça bonita que quer se afogar
sacada em frente a solidão
e mar -
ressaca das ondas
soando bem aos ouvidos.

Sem ela
que a maré levou.


Lee Flôres Pires

sexta-feira, junho 18, 2010

Separação

Desmontar a casa
e o amor. Despregar
os sentimentos das paredes e lençois.
Recolher as cortinas
após a tempestade
de conversas.
O amor não resistiu
às balas, pragas, flores
e corpos de intermeio.

Empilhar livros, quadros,
discos e remorsos.
Esperar o infernal
juizo final do desamor.

Vizinhos se assustam de manhã
ante os destroços junto à porta:
- pareciam se amar tanto!

Houve um tempo:
uma casa de campo,
fotos em veneza,
um tempo em que sorridente
o amor aglutinava jantares.

Amou-se um certo modo de despir-se
de pentear-se.
Amou-se um sorriso um certo
modo de botar a mesa. Amou-se
um certo modo de amar.

No entanto, o amor bate me retirada
com suas roupas amassadas, tropas de insultos
malas desesperadas, soluços embargados?

Faltou amor no amor?
Gastou-se o amor no amor?
Fartou-se o amor?

No quarto dos filhos
outra derrota à vista:
bonecos e brinquedos pendem
numa colagem de afetos natirmortos.

O amor ruiu e tem pressa de ir embora
envergonhado.

Erguerá outra casa, o amor?
Escolherá objetos, morará na praia?
Viajará na neve e na neblina?

Tonto, perplexo, sem rumo
um corpo sai porta afora
com pedaços de passado na cabeça
e um impreciso futuro.
No peito o coração pesa
mais que uma mala de chumbo.


Affonso Romano de Sant'Anna

sexta-feira, junho 11, 2010

Ele por ele

O corpo fica apático
quando o Amor não ama mais.
Vertigem letárgica,
cacos de pensamentos,
lembranças despedaçadas.
Não sobrou versos,
nem rascunhos de sentimentos,
quando o amor não ama mais.

Pegou o ônibus,
mudou de cidade,
mudou de casa
e de toque
e o corte da carne,
quando o amor não amou mais.


Lee Flôres Pires