sábado, julho 24, 2010

De cara lavada

hoje me desfiz dos meus bens
vendi o sofá cujo tecido desenhei
e a mesa de jantar onde fizemos planos

o quadro que fica atrás do bar
rifei junto com algumas quinquilharias
da época em que nos juntamos

a tevê e o aparelho de som
foram adquiridos pela vizinha
testemunha do quanto erramos

a cama doei para um asilo
sem olhar pra trás e lembrar
do que ali inventamos

aquele cinzeiro de cobre
foi de brinde com os cristais
e as plantas que não regamos

coube tudo num caminhão de mudança
até a dor que não soubemos curar
mas que um dia vamos


(Martha Medeiros)

Bilhete

Se tu me amas, ama-me baixinho
Não o grites de cima dos telhados
Deixa em paz os passarinhos
Deixa em paz a mim!
Se me queres,
enfim,
tem de ser bem devagarinho, Amada,
que a vida é breve, e o amor mais breve ainda...


(Mário Quintana)

segunda-feira, julho 19, 2010

Rosa lágrima

Se os meus pés ficam
finco a clave lágrima
no meu cancer.
Se a boca
beija o veto
ei de dormir.

O poço que é fundo
rimou o vento -
barco a vela,
peito já não rima,
nem esquina
de flertar.

Cabelo doce
reflexo dela
preso no meu olhar.

E o alcóol
era forte
era música
em nota fora
do tom.
Era passível
se não fosse morte
corte pulso-poema
vontade de
deitar.

Amarelo lógico
verde dúvida.
Rosa solução.

A madrugada
gira
sem norte:
verso
cama
drama
leito
desfeito
sem sal.
Deleito
o leite
suco
de anseio -
cereal
sem açucar;
ressaca
normal.

... eis que acordou o poema!
O que lhe dar de manhã?
- mau humor e café amargo.


Lee Flôres Pires

terça-feira, julho 06, 2010

Coração fragmentado

As coisas não ditas
afogam-se neste
copo de vinho -
aquela sacada
escura.

As varandas
acesas
se resumem
à aquele cigarro
arrependido
no cinzeiro.

As noites não dormidas
cobram a conta
da tarde
do verso que o lápis
não escreveu.

Dói
o se...
dúvida.

o que transborda cabe no meu
peito -
palavras
escritas
no continente dos beijos
de ontem.
Passou,
a onda levou
balanço
fluido
de beleza.

Coração fragmentado.
Adeus.


Lee Flôres Pires