sexta-feira, outubro 15, 2010

Maldizendo

Não se encruzilhe.
Poesia é mandinga braba.

Se a caldeira
desavisada
ferve.
Não vá misturando
pitada de verbo
línguas de metáforas
gosto sinestésico
de luar...

Não arrisque
alquimia de significados,
ricos sabores neológicos,
pois o molho
unguento
cozinha...
será inocente o que virá?

Não se iluda
com a magia
das assonâncias,
a ousadia
nos ouvidos
das moças.

Poesia não é coisa
do céu.
É obra do cão.
Macumba,
urucubaca...
não solta mais
a sangria intermitente.
A prosa tinhosa.

Pensa que impunemente
pode ir criando cântico
que alcança o âmago
e faz do olho uma nascente?

Prepare bem o ébo
de peito aberto
e corpo fechado.
Poesia é négocio feito
com sangue e alma.
E o Coisa-ruim
cobra em espécie,
líquido e corrente.

Não invoque o mundo
esta suposta
encruzilhada
de olhos maleguetos.
Esta sensação de incômodo.

Depois não haverá remédio,
exorcismo, quebranto
que arranque
o nódulo do peito -
essa paixão no estômago.



Yara Fernandes e Lee Flôres

Um comentário:

Ari Denisson disse...

"Poesia/É coisa do cão."

O que é mais fabuloso na poesia é poder achar belas até mesmo as certezas que não são suas.

Interessante.