domingo, dezembro 18, 2011

Aula de desenho

Estou lá onde me invento e me faço:
De giz é meu traço. De aço, o papel.
Esboço uma face a régua e compasso:
É falsa. Desfaço o que fiz.
Retraço o retrato. Evoco o abstrato
Faço da sombra minha raiz.
Farta de mim, afasto-me
e constato: na arte ou na vida,
em carne, osso, lápis ou giz
onde estou não é sempre
e o que sou é por um triz.


(Maria Esther Maciel)

segunda-feira, dezembro 05, 2011

Sobre a felicidade

Mentiram: a felicidade,
Mohammad,
não se vende.
... e então os jornais
escreveram que do céu
choveram rãs ontem à noite.
amigo, roubaram-te a felicidade
enganaram-te
torturaram-te
crucificaram-te
nos laços das palavras
para dizerem de ti: morreu
para te venderem um lugar no céu.
ai como é inútil chorar.
eu tenho vergonha, Mohammad
e então as rãs
roubaram-nos a felicidade.
e eu apesar do sofrimento
continuo a caminho do Sol.

plantaram a noite com adagas
e cães

o céu da noite desaba sobre eles.
então revolta-te!
Mohammad!
então revolta-te!
e cuidado, não sejas traidor.

Abd al-Wahab al-Bayyati
Tradução: André Simões

domingo, outubro 16, 2011

Caminho do Sol

O que devo pensar de tuas mãos
dentro do bolso do casaco?
Desta delicadeza escondida
sob mangas e olhos cerrados?

E ela continuava o caminho do sol
seguindo o tráfego cheio de certezas.
E eu, em plena Consolação,
descobria as impossibilidades
de um céu nublado
estampadas na manchete da revista,
na apatia do jornaleiro contando trocados.

Nossos caminhos,
cortando o meio dia
com uma flor cinza,
ruídos e névoas,
se desviaram sob o silêncio plausível dos velhos. 

Lee Flôres Pires

quinta-feira, setembro 15, 2011

A dor que dói mais

Trancar o dedo numa porta dói. Bater com o queixo no chão dói. Torcer o tornozelo dói. Um tapa, um soco, um pontapé, dóem. Dói bater a cabeça na quina da mesa, dói morder a língua, dói cólica, cárie e pedra no rim. Mas o que mais dói é saudade.
Saudade de um irmão que mora longe. Saudade de uma cachoeira da infância. Saudade do gosto de uma fruta que não se encontra mais. Saudade do pai que já morreu. Saudade de um amigo imaginário que nunca existiu. Saudade de uma cidade. Saudade da gente mesmo, quando se tinha mais audácia e menos cabelos brancos. Dóem essas saudades todas.
Mas a saudade mais dolorida é a saudade de quem se ama. Saudade da pele, do cheiro, dos beijos. Saudade da presença, e até da ausência consentida. Você podia ficar na sala e ele no quarto, sem se verem, mas sabiam-se lá. Você podia ir para o aeroporto e ele para o dentista, mas sabiam-se onde. Você podia ficar o dia sem vê-lo, ele o dia sem vê-la, mas sabiam-se amanhã. Mas quando o amor de um acaba, ao outro sobra uma saudade que ninguém sabe como deter.

Saudade é não saber. Não saber mais se ele continua se gripando no inverno. Não saber mais se ela continua clareando o cabelo. Não saber se ele ainda usa a camisa que você deu. Não saber se ela foi na consulta com o dermatologista como prometeu. Não saber se ele tem comido frango de padaria, se ela tem assistido as aulas de inglês, se ele aprendeu a entrar na Internet, se ela aprendeu a estacionar entre dois carros, se ele continua fumando Carlton, se ela continua preferindo Pepsi, se ele continua sorrindo, se ela continua dançando, se ele continua pescando, se ela continua lhe amando.

Saudade é não saber. Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos, não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento, não saber como frear as lágrimas diante de uma música, não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche.

Saudade é não querer saber. Não querer saber se ele está com outra, se ela está feliz, se ele está mais magro, se ela está mais bela. Saudade é nunca mais querer saber de quem se ama, e ainda assim, doer.
 
(Martha Medeiros)

quarta-feira, julho 06, 2011

Elos

Os dedos talhando
caminhos no corpo
do amor forjado à pedra
na frieza da calçada
no punho da enxada
que quer nos educar.

Educação forjada à ferro
teus braços martelos
seus olhos meus elos
de péle e silêncio.


Lee Flôres Pires

domingo, julho 03, 2011

Sonho de poeta

Quem dera fosse meu
o poema de amor definitivo.
Se amar fosse o bastante
poder eu poderia
pudera, às vezes,
parece ser esse
meu único destino.
Mas vem o vento e leva
as palavras que digo
minha canção de amigo.
Um sonho de poeta
não vale o instante vivo.
Pode que muita gente
veja no que escrevo
tudo que sente
e vibre, e chore e ria como eu,
antigamente, quando não sabia
que não há um verso, amor,
que te contente.

(Alice Ruiz)

segunda-feira, maio 02, 2011

Mar de mágoas

Sopro,
afoito,
a brisa
impaciente.

A tua face,
calma,
rompe
meus tímpanos:

Com o frio
de sua presença.

O vento,
pós boca
segue,
úmido.
Esperando
terra firme.

Estabanado sul
preso
no ar que se respira.

Transpira
mar,
o vento leste,
péle por péle
que sigo
a voar.

Calmo,
seco,
tropical
pedaço
de mágoas.

Espalho
no seu punho
fértil
o direito
de existir.
O fruto
que brotastes
em mim.



Lee Flôres Pires - 12/08/2010

sábado, abril 16, 2011

A ferro e fogo

Cravo esta canção
no teu corpo
- asfalto -
à temperatura
do pneu
em brasa.
Faço-o arma,
escudo
pra proteger
meu peito.

Este mundo
- máquina de
moer
ossos
e sonhos -
nos dá o tom
a base
do fogo
e do ferro.
Fere
e marca
a lição
da vida
como tatuagem.

No Tórax
o vapor
de verso
em verso,
nos pedem
silêncio
paciência
e cicatrização.

Mas ainda
há som,
refrão
e última estrofe.
Podemos
quebrar
o compasso,
subverter
o ritmo,
soar
o dissonante
e compor
uma nova canção.


Lee Flôres Pires

terça-feira, abril 12, 2011

Reivindicação

Da maioria
o estranhamento
a ausência
das palavras reais.
Me restou fugir
com o poema vivo.

Do caminho -
mortos
por
mortos -
evito
trilhas
não humanas
fetiche
de felicidade.

Reivindico
o simples verso
que me emocione
que me devolva
o direito
de sonhar.


Lee Flôres Pires

sexta-feira, abril 08, 2011

Geografia dos pássaros

Entre nós
não há geografia
não há espaço
não há tempo
que os versos
não possam transformar.

Te prometo que
o amanhecer
os pássaros
as flores
e as greves
serão
tu e eu -
e seremos nós
a cobrir violentamente
o asfalto.


Lee Flôres Pires 15/11/10

terça-feira, fevereiro 08, 2011

Aço III

A pedra
o tabaco
o aço

traçaram
o que restou
das flores
do asfalto
sob o sangue
e a borracha.

A pedra
o tabaco
o aço

contraem
retraem
e
fincam
a vida
nas frestas
da morte.



Lee Flôres Pires

sexta-feira, janeiro 28, 2011

Tela em transe

Ele,
que vivia sentado
sob o mesmo terno,
viu passar os anos
e as pessoas
iguais aos velhos.

Ele,
que já era velho
de idade
e pernas,
abandonou os planos
as gravatas
e os nós na garganta.

Ele
indiferente
às moças
cheias de vida
na caixinha de luz.

Ele
indiferente
à suposta vida -
tela em transe
de não ser humano.


Lee Flôres Pires

quarta-feira, janeiro 05, 2011

O quem das coisas

a Manoel de Barros

Molhado de peixes
eu se chorei
um rio de andorinhas
porta de silêncio
boca fechada.

Seco de árvores
eu se amei
um vento sem raízes
trem descarrilhado
passageiro sem caminho.

Sem palavras
sem voz
inultilmente
atrás do quem das coisas...


Lee Flôres Pires