sexta-feira, novembro 09, 2012

Eutanásia

Encontrei o amor
na gaveta mofado
entre traças e fotos.

Pra que serve o amor?
Souvenir raro?
Bibelô de armário?

Pra que serve o amor
esquecido na gaveta?

Melhor rasgar as fotos
matar o amor
do que mantê-lo vivo
respirando por aparelhos.


Lee Flôres Pires - Domingo, 18 de novembro de 2007

(poema extraído de um blog antigo - No fundo do Prato)

sábado, novembro 03, 2012

Coração de tinta

Com a importância das coisas inúteis
me ensinaram que não há amor no vento.
Indisciplinado,
pintei no ar nossos corpos
com a arrogância juvenil de um catavento.

Estava pronta a minha obra-prima:
Tinta púrpura sobre a tela
e sobre a cama apaixonada.

Estava pronto o nosso amor,
alegre como a pétala em silêncio
plumava desafiando a tempestade.

Mas a impiedosa utilidade dos rumos,
do movimento das mares,
desmanchou os nossos corações de tinta,
rasgou as fotos pela sala.

Fez-se nada os falsos moinhos de ventos que não inventei.
Fez-se tudo a singela lição anti-romântica que não aprendi.

Que só aprendi com o nosso quarto inundado de distância
e a nossa vida devastada de verdade.


Lee Flôres Pires

domingo, outubro 14, 2012

Laço

a Yara Fernandes

Laço:

rituais
de bocas 
e discursos -
pacto
de dedos
danças
e retratos de açúcar.


Lee Flôres Pires

sábado, setembro 15, 2012

Monalisa

A saliva
ordenha
a língua
o desenho
da boca
de entremeios.

Delineia
contornos
entrelinhas
íntimas
deste poema
seiva.

Esboça
a textura
arisca
e pinta
nua
a Monalisa
em você.


Lee Flôres Pires

quarta-feira, setembro 12, 2012

Silêncio mineral

Eu queria ler as pedras
molhadas de chuva
e noite
para descobrir
os caminhos
do amanhecer sem frio.

Mas o silêncio mineral
congela as extremidades
do meu corpo,
mundo eu,
cortando o rubro
dos meus lábios.

Surge o aroma,
avelã que brotou
no caminho mudo
das pernas
pela manhã de sol
e passarinho.

E no rio:
água,
pedras,
vida.

Quem sabe pedras podem falar?
Quem sabe pedras tragam vida?

Quem sabe
flores,
borboletas,
amores
no desaguar
do rio no mar.


Lee Flôres Pires

sábado, setembro 08, 2012

Lápis


Quando a carne
escorre o vinho
dos teus olhos
preto lápis,
desejo
por um triz
seus lábios
e esqueço
a impossibilidade
de nossos hábitos.


Lee Flôres Pires

quinta-feira, setembro 06, 2012

O folhetim

Na cama
o mundo gira
as noites escuras
perdidas
lembrando
na Polaroid antiga
a mulher
que mil vezes amei.

No criado mudo
tempestades
notícias
nas páginas
das revistas
que inventei
só para ler seu nome.

No peito nu
o folhetim
rasga seda
a todas
as mulheres
que rasguei em um só dia.

Para não manchar o cetim
enxugo as lágrimas
e as marcas de batom
desta noite
de esquecer o fim.


Lee Flôres Pires

quinta-feira, agosto 02, 2012

Vinte e cinco agostos


Não quero mais tristeza
a minha já me basta
já basta no peito
guardar os velhos hábitos.

Te guardo molhada
na memória
das flores
secas e mortas.
Recordando
dedicatórias
e releituras
no frio da madrugada.

De nada me adiantou o seu francês
seus olhos,
desesperos,
seus presentes apavorados.

De nada me adiantou amor
e Manoel de Barros
se o sentido normal
das palavras me faz mal
me rouba 25 agostos
que não tive
nem nunca mais terei.


Lee Flôres Pires

quarta-feira, agosto 01, 2012

Pé no chão

O clichê pede emoção?
Ou uma regra
tecendo linhas retas -
poesia pé no chão?

Pede
apenas o sóbrio,
o óbvio.
Mas o ópio não.

Nem veia,
nem sangue,
nem razão
são exibição.

Poesia é puro coração.


Lee Flôres Pires


terça-feira, maio 29, 2012

Ácida pluma

A tua mão em minha pele...
silêncio.
Sal, saliva, limão...
distância.
Nosso corpo,
ácido sabor.

Síntese
do toque
do sonho
da voz de longe
fragmentada.

Do ar que leva –
pluma –
o aroma.


Lee Flôres Pires

sábado, maio 19, 2012

Mar

a Neire Costa

Quando o mar vem,
traz com ele
a ressaca.

Traz também:
o sal que arde
a boca, o corte,
a correnteza
sangrenta
de morte,
de paus,
de pedra
e de sorte.


Lee Flôres Pires

quinta-feira, maio 17, 2012

Coração

a Neire Costa

O coração
engrossa
o caldo,
a carne só.
 

Goza,
enverga,
entrega,
estraga
qualquer
fossa
encaliçada
sem proporção.



Lee Flôres Pires

quinta-feira, maio 10, 2012

Mural de avisos

Vai meu bem,
mas não esquece
seus lírios no jardim,
suas conchas na areia
e saia vestida de beleza
pra não deixar que a tristeza
adentre a porta e diga sim.


Lee Flôres Pires

terça-feira, maio 08, 2012

Quadris

Que a reação dos quadris
te cause vias profanas
e teu verso sacro
coagule tudo que secretei.

Que a dor etílica seja injetada
no osso e no orvalho;
no nervo ciático
de minha lombociatalgia.

saliva sutra,
sexo, sangue
e sentimento -
sinestesia
da péle
do toque,
nus:
tua
minha
transfusão.


Lee Flôres Pires

terça-feira, maio 01, 2012

Primaveras

Não há sonhos
a tristeza corriqueira dos apartamentos
cancela nosso toque.
Esfria nossas bocas
e dentes remotos do amanhacer.

Rapta a alegria vestigiosa
de não ser imorte.
Cala
o mais belo jeito
de resplandecer.

Não há primaveras
os dias inertes moem os aromas
trituram as pétalas
das flores que murcham
sem você.


Lee Flôres Pires

segunda-feira, abril 23, 2012

Mundo de Sofia

a Sofia Abreu

Não lembra?
Aquela mesa
aquele bar
aquele olhar.
Não lembra?

Aquela lua
aquela voz
aquele mar.
Aqueles tempos
pessoas em comum.
nada em comum,
lembra?

Olhar nos olhos
espontâneo?
Ou sincero?

Meu nome,
meu endereço,
poema vestido,
molhado de onda levando,

correnteza adentro.

Esqueceu?
Onze anos,
quatorze horas,
dezessete emoção.

Ganhou o dia?
Declaração de dores:
- Quando convém finjo amar,
pretendendo amores.

Que venha maio:
cinema -
comedia romântica -
seu sangue, signo e coração.

Concluo.
Dizem.

Inusitada
nem tanta
simpatia.
Nem pensar
em entrar.
Mas onde estão as portas?

Descobrir os caminhos
dos vales, das pedras.
Entortar os trilhos de Abril:
- Doce Abril.

E você tão passageira
com seus sapatos vermelhos
deixando para trás meus dias tristes.



Lee Flôres Pires

quarta-feira, abril 04, 2012

Gol aos quarenta e três

Minha segunda falta de ar,
minha terceira taquicardia,
minha quarta troca de coração,
meu calibrado quinto peito.

Meu sexto eterno adeus.

Minha sétima mais uma vez,
minha oitava nova emoção,
nona jura de amor e morte,
décima grande decepção.

Desfaço as malas:
décimo primeiro
apartamento sem você.
Reorganizar
as pedras e os sapatos,
as fotos, a cabiceira
e o cheiro de jardim. 

E o gosto da tua lágrima
na primeira flor
que me desses,
guarda dezenas
de noites
e alvoradas,
e me faz abrigo
neste entardecer
como se fosse
a primeira vez.


Lee Flôres Pires

domingo, fevereiro 26, 2012

No metrô
transeuntes
hiperestimulados
atropelam sonhos
com seus corpos máquina
e suas cabeças televisão.
Na real
suícidios pálidos
que poderiam realizar
nos trilhos
ou em qualquer vagão.


Lee Flôres Pires

quinta-feira, fevereiro 23, 2012

Janela do olhar

Nesta tua fresta,
não se diz o ver,
não se mede o sentir.
Só o belo existir
de quem fala
e entende num flertar.

Neste teu filtro,
não se enxerga o ver,
e quem sente, cala;
mente, finge esquecer
o que não se pode dizer.

Para o belo existir,
Surgido do triz dos lábios,
do cheiro do novo amanhecer,
deixa voar o vento –
veludo invisível, calma.

A mão só fala enquanto palma,
e o corpo enquanto alma,
e o silêncio enquanto olhar.

E para o que não se pode dizer
deixa a luz destes teus olhos -
eterno não esquecer.


Pedro Caetano/Lee Flôres Pires