sábado, novembro 03, 2012

Coração de tinta

Com a importância das coisas inúteis
me ensinaram que não há amor no vento.
Indisciplinado,
pintei no ar nossos corpos
com a arrogância juvenil de um catavento.

Estava pronta a minha obra-prima:
Tinta púrpura sobre a tela
e sobre a cama apaixonada.

Estava pronto o nosso amor,
alegre como a pétala em silêncio
plumava desafiando a tempestade.

Mas a impiedosa utilidade dos rumos,
do movimento das mares,
desmanchou os nossos corações de tinta,
rasgou as fotos pela sala.

Fez-se nada os falsos moinhos de ventos que não inventei.
Fez-se tudo a singela lição anti-romântica que não aprendi.

Que só aprendi com o nosso quarto inundado de distância
e a nossa vida devastada de verdade.


Lee Flôres Pires

Um comentário:

NDORETTO disse...

Nossa, muito,muito bom!!!
Bela construção de poesia "...rasgou as fotos pela sala "

Ô,menino, "brigado " aí pela visita atenciosa, gostei muito.

abraços
Neusa