quinta-feira, agosto 29, 2013

Concha

À Amélia Pais

Para o fio do caminho,
a meada contornada
no limiar do dia,
atrás da luz que se esvai
em seus sonhos alados,
seus olhos calados,
guardados no teu peito
fundo, dentro do mar.

Lee Flôres Pires

Cedo

Desculpo 
teus braços, 
Guernica 
e Picasso. 

Esculpo 
teu corpo cedo, 
dedos e culpa. 

Cedo ao barro moldado 
em teus contornos, 
desabafos desenhados 
na minha cama, 
e no amanhecer de tua pele.

Lee Flôres Pires

Ampulheta

Sempre vejo a mesma flor,
alegre, reinventando o amor,
uns em azul, outros em violeta.

De/lírios, noite, lilás,
aroma, licor e cais,
de bailarina
e baionetas
sem fim.

Lee Flôres Pires

sábado, maio 04, 2013

Manhã de poesia

Diante do outono
espero a primavera,
com fé nos homens
nesta fábrica de máquinas 
e de um mundo cinza.

Ser feliz quando tudo é infelicidade,
apenas por um sonho de liberdade.

Possível, necessário.

Temperar no aço
a última manhã de poesia
nas nuvens, nas flores
no doce dos nossos lábios.

Lee Flôres Pires


sábado, março 02, 2013

Madrugada

A noite cai viscosa,
escorrendo lentamente pela parede do nosso quarto -
óleo diesel que inflamava nossa cama.

O dia se nega a nascer,
tua ausência freia a gravidade
em tudo que a vista alcança:
a chuva desce lenta diante da nossa janela -
tragédia sem cores
que me lava
e me arrancar da pele seu toque.

A madrugada, se esvaindo
em lágrimas, congela meu peito,
e um sol pálido anuncia a manhã
em meu corpo cinza
e sem sentidos.

Lee Flôres Pires/Rafael Costa

terça-feira, janeiro 08, 2013

Lume

à Tamiris Rizzo

Não começamos agora,
nem terminaremos depois.
O mundo é eterno
quer queira os homens,
as formigas,
e os elefantes.

Não há fim,
bocas sem saídas,
carinhos sem horizontes.
Nossos olhos de descobrir são infinitos
como os nomes das letras,
e as ruas sem nomes.

Não há que se esperar da vida
o mesmo que os vaga-lumes esperam da luz.

Há de se prosseguir a noite sem prantos,
rasgar os becos e o medo do inimigo.

Há de se esperar novos rumos,
vindo dos caminhos que não respeitam mãos atadas,
e avenidas sem liberdades.

Há de sonhar sob o lume,
com todo o pulso e coração.


Lee Flôres Pires


sábado, janeiro 05, 2013

Festim

Por qual janela se foi seu aroma?
Seu perfume que ficou no ar quando você fechou a porta?
Seu cheiro de jasmim na memória
de quem o tempo não perdoa por não cultivar a flor?

Lembro de uma noite cinza,
meus olhos sem lágrimas.
E na ausência de dor
o fim passou despercebido,
como as luzes que se apagam,
no fim da festa do nosso amor.


Lee Flôres Pires